O Lá Em Casa faz aniversário – mas quem ganhou presentes fomos nós

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 Cláudio Nóvoa*

23/04/2016 – O ano de 2015 já estava no seu quarto mês e eu ainda não tinha acertado uma academia que me desse o prazer e a felicidade que um projeto da prefeitura tinha me dado até o dezembro anterior.

Afinal, ginástica para soropositivos tem especificidades que um professor de academia não é obrigado a ter: exercícios específicos para perda de gordura localizada, contagem de tempo diferenciada para quem tem problemas respiratórios, experiência em perda de mobilidade advindas de neuropatias e mais do que tudo: paciência, muita paciência.

No projeto da prefeitura – que a coordenação de DST/Aids resolveu acabar para, segundo eu soube, “empregar a verba em outros projetos” – eu tinha pegado gosto pelo exercício físico diário e isso me tirou da depressão, me fez perder peso, mudou a minha vida.

Foi assim, me sentindo abandonado nas especificidades do que meu corpo precisava, que num sábado de abril, quando já pensava em buscar outra academia que me servisse na segunda-feira, ouço o Carlos Tramontina dizer na TV que “hoje será inaugurado um projeto idealizado pela jornalista Roseli Tardelli, que vai proporcionar exercícios físicos e melhora na qualidade de vida dos soropositivos – e o melhor: tudo de graça”.

Eu já conhecia a militância da Roseli Tardelli, sabia das suas batalhas, me informava muito pelas matérias da Agência de Notícias Aids, sabia que ela tinha morado a três quarteirões da minha casa, no bairro da Casa Verde.

Mas o melhor foi quando o Tramonta deu o serviço: “O Projeto Lá Em Casa fica na Rua Serra Azul, 74, no bairro da Casa Verde” – exatamente na casa onde a Roseli tinha passado parte de sua vida, com seus pais e irmão que, vitimado pela aids, a fez mergulhar de cabeça tanto na defesa, quanto na informação sobre a doença.

Ansioso como sou, minutos depois, eu já estava lá, mas, ao ver a multidão que participava da inauguração, minha timidez falou mais alto, dei meia volta e preferi voltar depois.

O ‘depois’, evidentemente, foi na segunda-feira e logo ao chegar lá, dei de cara com o Reinaldo Sobrinho, professor de educação física que eu já conhecida do finado projeto de ginástica da prefeitura – o que já foi meio caminho andado, pois eu sabia que ele era especializado no tipo de ginástica que eu necessitava.

A partir desse dia, minha vida mudou, para muito melhor.

Se o projeto da prefeitura tinha me dado o gosto da rotina para exercícios físicos, o Lá Em Casa tem sido minha faculdade.

Em um ano, perdi mais peso, parei de tomar antidepressivos e reguladores de pressão arterial, passei a comer melhor, ganhei massa muscular, não tenho mais nem glicemia limítrofe, nem colesterol alto.

Melhor: ganhei uma disposição absurda, para voltar a fazer tudo o que eu fazia, agora mais e melhor.

O melhor do Lá Em Casa são as pessoas

O Reinaldo e o André são professores que sabem analisar e entender o que seus alunos especiais precisam, já que a carga de exercícios é individualizada e a paciência dos dois, infinita.

Temos lá também uma dupla de mulheres maravilha, Silvinha e Cristina, que cuidam do dia a dia da casa. Além de tudo que lá fazem por todos nós, elas nos ouvem, aconselham e acalmam.

Mas para mim, o melhor de tudo é ver o estágio de vida que as pessoas lá chegam e como elas evoluem.

O melhor exemplo é o do Wal, que vi chegar, triste e se arrastando, de bengala, pois tinha perdido mobilidade, devido a uma toxoplasmose.

Nos primeiros dias, o Reinaldo só fez um trabalho intenso de distender sua musculatura, muito atrofiada.

Depois, começou com os exercícios, carga bem leve, para ir aumentando à medida que o corpo dele reagisse.

Na primeira vez que eu o vi fazendo toda uma série de ‘subir-descer’ de uma caixa de madeira até alta, fiquei tão emocionado que tive de sair de perto para chorar – um choro misto de emoção e alegria, de ver que, como na minha vida, a prática de atividade física pode não só resgatar, mas até mudar para melhor a vida das pessoas.

Em menos de um ano no Lá Em Casa, Wal já anda de lá pra cá, ganhou mobilidade, musculatura firme e um sorriso permanente no rosto.

Agora, minha alegria é quando lá chego, o vejo caminhar, firme pela rampa da entrada, para me abrir o portão.

Ontem mesmo, saí do Lá Em Casa com ele até o ponto: o percurso é uma ladeira, as calçadas não são lá essas coisas, mas o Wal vai, passos firmes, até subir, lépido, no ônibus.

Toda vez que eu o acompanho, tenho o prazer de ver e rever tudo isso – e se para quem está de fora, nada significa, só nós sabemos o quanto tudo isso conta.

Se eu vou ao Lá Em Casa só para fazer exercícios físicos – e não posso ficar mais, pois trabalho – tem gente que vai, se exercita, depois toma banho, almoça, conversa, convive e marca passeios.

O Lá Em Casa acolhe tudo e todos, com atenção, carinho e principalmente, respeito.

É uma experiência pioneira, fruto de uma cabeça privilegiada e futurista como a da Roseli e que só escancara que HIV é também e principalmente resgate da autoestima, é bola pra frente, é vida que segue.

E que não pode ser tratado só com consultas, exames e antirretrovirais.

* Cláudio Nóvoa é jornalista e primeiro aluno do projeto Lá Em Casa, um centro de reabilitação física e de convivência para pessoas vivendo com HIV/aids. Batizado de Lá Em Casa – Saúde, Arte, Bem-Estar e Cidadania, o projeto que surgiu com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos soropositivos celebra seu primeiro aniversário, no dia 25 de abril (segunda-feira).

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