O JARDINEIRO FIEL, CEGO, SURDO E MUDO – José Carlos Veloso é Assistente Social, mestre em ciências da saúde e Presidente do GAPA/SP

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José Carlos Veloso

O filme “O jardineiro fiel”, além de ser um bom romance e uma ótima ficção, tem o poder de trazer à tona uma situação que há vários anos está presente no universo de pesquisas clínicas em seres humanos, embora muitos avanços na área de ética em pesquisa tenham sido conquistados desde o final da segunda Guerra Mundial.

A trama vivida pelos atores muitas vezes se confunde com a vida real, em que grandes laboratórios farmacêuticos em nome do progresso da ciência que, na verdade, encobre os interesses econômicos dessas grandes corporações, conduzem pesquisas clínicas anti-éticas em países pobres. Vivemos situações muito parecidas não só na África, como em qualquer lugar onde laboratórios farmacêuticos encontram brechas ou inexistência de regulamentações éticas.

No Brasil, vivemos recentemente na década de 90 uma situação em que o laboratório insistia em dar placebo (substância sem efeito) para um grupo de pessoas infectadas por HIV em comparação com o medicamento que estava em estudo.

Atualmente, vivenciamos mais uma queda de braço entre sociedade civil e laboratórios no caso das patentes no Brasil. Para proteção da suposta propriedade intelectual, as grandes corporações farmacêuticas impedem o desenvolvimento tecnológico no país e praticam preços abusivos com medicamentos os quais o país está proibido de fabricar, devido acordo firmado na OMC – Organização Mundial do Comércio. Este mesmo acordo, TRIPS (Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionado ao Comércio) deixa claro que se houver interesse público e necessidade de repasse de desenvolvimento tecnológico, as corporações privadas devem colaborar para tanto.

No entanto, prevalecem os interesses econômicos acima do direito à vida e dignidade humana. O lobby exercido pelos laboratórios nos setores governamentais e organismos internacionais é tão grande que chega a ser vergonhoso. As falácias sobre o possível prejuízo que o licenciamento compulsório causaria às indústrias – caso fosse adotado, devidamente justificado, por se tratar de risco à saúde das pessoas que vivem com HIV/AIDS – chegam ao cúmulo de afirmar que tal procedimento poderia pôr em risco os investimentos em pesquisas para novos medicamentos. Ora, todos nós sabemos que a indústria farmacêutica é a terceira maior potência econômica do mundo, e só conseguiu essa façanha praticando os preços abusivos nas vendas de medicamentos que, seguramente, são muito mais altos que os custos de investimentos em pesquisas.

Talvez o “Jardineiro fiel” faça com que as pessoas reflitam um pouco mais sobre o assunto, que parece estar tão distante de nós em acordos financeiros e tratados no âmbito internacional, mas que seguramente refletem em nossos bolsos e, muitas vezes, em nossas vidas. Talvez seja esta a oportunidade da indústria cinematográfica começar a cooperar com a sociedade trazendo temas que não aparecem diante dos olhos do grande público.

De alguma forma, temos que fazer com que a sociedade acorde para os atos anti-éticos que as indústrias, sejam elas farmacêuticas, alimentícias, automobilísticas, informática e etc.., cometem em nome do bem e do lucro.

Quantas vítimas vamos precisar, para despertar os diversos “jardineiros fiéis” que habitam dentro de nós, fechando os olhos para as mazelas cometidas em países pobres e desrespeito com a dignidade humana? Não é este o mundo que precisamos, em que pobres pagam pelos ricos, em que os menos desenvolvidos ficam cada vez mais dependentes das grandes potências, privadas ou não.

Enquanto o imperialismo econômico continuar ditando o rumo da história, muitos ativistas e lutadores como “Tessa”, protagonista do filme de Fernando Meireles, irão pagar com suas próprias vidas o preço de lutar por um mundo justo e digno para todos.

José Carlos Veloso é Assistente Social, mestre em ciências da saúde e Presidente do GAPA São Paulo

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