por Pedro Chequer
Relendo com mais atenção a reportagem da Joaquim Venâncio /Fiocruz, estou mais ainda convencido sobre a grande contribuição que esta trouxe ao país no campo da saúde publica. A análise desenvolvida ultrapassa o tema do HIV e discorre sobre outros aspectos da intervenção proposta pela FIFA no âmbito escolar. Por sinal, dado sua capacidade técnica, vai mais além e faz uma reflexão sobre a abordagem pedagógica, que considera inadequada, além de ultrapassada.
Como registrei em minha postagem, estava certo de que algumas orientações sobre o HIV não correspondiam ao compromisso, à historia e ao conhecimento técnico do dr. Fábio Mesquita, o que fica claramente evidenciado em comentários sobre o episódio em seu registro, conforme enfatiza, como cidadão.
A reportagem da Agencia Aids (de 14/02) elucida lacunas existentes, quando informa que o Departamento de Aids propôs modificações ao texto original elaborando uma errata a ser anexada ao material, ainda que isso não tenha ocorrido por ocasião da capacitação de treinadores, conforme revela a reportagem.
Pelo que pude perceber, exceto que haja aspectos não explicitados, este programa, fruto de parceria governamental com a Fifa, teve seu documento referência traduzido, impresso e sua fase de treinamento iniciada sem que o Departamento de Aids pudesse previamente à essa etapa oferecer sua contribuição e propor as correções pertinentes, o que é inaceitável do ponto de vista gerencial, técnico e político; ou, alternativamente, a modificação proposta não ter sido incorporada, conforme relata a reportagem.
Coincido integralmente com a afirmação de Carlos Eduardo Batistella, professor-pesquisador da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz): “É de estranhar que os Ministérios da Saúde e da Educação não tenham obstado essa iniciativa, uma vez que a construção de políticas de saúde e educação no país já nos autoriza a considerar que não precisamos de auxílio iluminado para estabelecer um ‘programa de educação séria sobre saúde’, como anuncia a Fifa no material do programa”.
Isto é absolutamente correto – há no país capacidade acumulada mais que suficiente nas diversas áreas objeto do programa da Fifa para que o Brasil dispense esta “ajuda”, como fez no passado o Programa de Aids ao recusar o apoio financeiro de 40 milhões de dólares do governo americano, por conter exigências para sua recepção que contrariavam princípios éticos adotados pelo país. E no caso do HIV em particular, suficiente desengavetar as iniciativas elaboradas por setores do próprio governo em parceria com a sociedade civil e que foram vergonhosamente interrompidas para ceder a pressões de grupos conservadores politicamente articulados – aspecto este, dentre outros, já abordado por Beto de Jesus em seu comentário.
Finalizando, gostaria de deixar claro que, numa democracia, o cidadão pode e deve exercer seu papel, analisando as políticas públicas e delas discordar, com elas coincidir bem como propor modificações, sem que isso represente sublevação da ordem constituída, depreciação do trabalho em curso ou agenda subjacente. Pelo contrário, significa uma clara preocupação com o aperfeiçoamento das instituições e nas ações que são desenvolvidas com o seu dinheiro como contribuinte.
Pedro Chequer é médico especializado em saúde pública, ex coordenador do Unaids Brasil.
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