* Por Liandro Lindner
Desde o crescimento do acesso à rede mundial de computadores e do boom das redes sociais virtuais, surgem afirmações constantes sobre a necessidade de se investir mais nestes meios para levar informação em saúde em especial a algum público específico. Na medida em que se destacam alguma situação envolvendo a aids, não faltam defesas deste tipo de comunicação e, embora a realidade do mundo virtual seja algo forte na forma de as pessoas se informarem nos dias de hoje, há que se levar em considerações algumas peculiaridades do Brasil e das populações mais atingidas na hora de se pensar políticas e estratégias de comunicação.
Dados da PNDA (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do IBGE indicam o crescimento considerável da população brasileira com acesso a internet. Mas, mesmo assim, mais da metade dos brasileiros (53%) não possui acesso. O fenômeno parece ser bem mais concentrado na população jovem, em que os percentuais de acesso e tempo gasto navegando se destacam. Entre 15 e 19 anos, o uso beira os 75%.
Quando os dados se fragmentam se observam diferenças regionais discrepantes. Enquanto alguns estados do sul e do sudeste registram acesso de mais da metade da população, Distrito Federal (71,1%), São Paulo (59,5%) e Rio de Janeiro (54,5%), outros do norte e do nordeste apresentam parcelas bem menores de internautas, como Maranhão (24,1%), Piauí (24,2%) e Pará (30,7%).
Ao analisarmos as populações específicas com maiores índices, vamos notar que muitas estão longe do acesso virtual que seria adequado à transmissão de informação em saúde. Os moradores de rua, por exemplo, estão em maioria, alijados do mundo virtual sem condições básicas de higiene e alimentação, a pouca parcela moradora de abrigos possui no máximo algum aparelho de TV aberta para interagir com o mundo externo.
Da mesma forma as populações carcerária e indígena não têm oportunidades de interação profunda no universo virtual. Se verificarmos a população jovem veremos que não existe um bloco monolítico deste grupo. A juventude negra e LGBT acumula uma série de peculiaridades como o preconceito e o estigma, o desemprego e a falta de oportunidades de acesso que devem ser consideradas dentro de um sistema de saúde que se pretenda global.
A realidade de drogas e uso abusivo de álcool nesta população registra índices altos em todas as regiões. Quando somados a exposição à violência e a outras causas de morte, como o suicídio, revelam aspectos importantes onde a prevenção, o acolhimento e o cuidado devem agir. Num mundo de tantos atrativos como falar de saúde e aids se tornaria também um atrativo em meio a tantos estímulos?
As campanhas massivas ainda ocupam fundamental importância na transmissão de uma mensagem ampla à população em geral sobre o rumo que se quer passar para determinada problemática de saúde. No caso da aids, o combate à discriminação é fundamental para ações deste tipo, mas além disto ações localizadas possuem importância certeira por falarem diretamente a um grupo, numa linguagem direcionada e clara.
Mas, antes disto, outras questões se fazem necessárias, como um envolvimento maior na realidade destas populações a fim de entender seu funcionamento, suas interfaces com questões de saúde, suas formas de se informar e comunicar, suas realidades e medos. Um trabalho de comunicação consistente só será possível quando esta etapa etnográfica se fizer antecipadamente conhecendo aos grupos a quem se quer falar.
Não nego a importância do mundo virtual com suas redes sociais, aplicativos, sites, blogs, fotos, textos, vídeos e uma infinidade de propostas que muitas vezes pecam pelo excesso. Ações de saúde neste universo são necessárias, mas, além disto, é fundamental investimentos no entendimento das sistemáticas da população e de grupos específicos, relacionados ao pensar saúde e ao fazer saúde. Somente juntando esforços é que os objetivos de qualidade de vida, de promoção da saúde e de fomento a igualdade social poderão ser atingidos.
Liandro Lindner é jornalista
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