Na Guiné Bissau, pior questão de gênero se refere a gênero alimentício

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Silvia Almeida*

 

23/10/2015 – 16h50

“Perdidos de vista e despistagem”. Essas foram as mais novas e diferentes formas que ouvi para designar o que aqui chamamos de “testagem e adesão”. Isso aconteceu durante minha viagem a Bissau, capital de Guiné Bissau, na África, onde estive neste semestre  numa missão brasileira, com o propósito de desenvolver uma das ações da Cooperação Técnica e Científica, entre o Brasil e a Guiné Bissau, na implementação do projeto ‘Fortalecimento de Combate ao HIV/AIDS em Guiné Bissau’.

Com mais duas profissionais de saúde, de Brasília (DF), formamos uma equipe e desenvolvemos uma semana de oficinas de Formação em Direitos Humanos e Ativismo para associação de pessoas vivendo com HIV/SIDA, sociedade civil e entidades públicas, durante uma semana.

Guiné Bissau é um país muito pobre e já imaginávamos que lá encontraríamos um cenário complicado sobre  aids (semelhante ao brasileiro em algumas questões e diferentes em outras), mas fiquei impressionada com as graves diferenças.

Como mulher vivendo com HIV há 22 anos e ativista desde então, sei o quanto as questões de gênero influenciam na prevenção, no tratamento e na saúde das mulheres. Mas, em Bissau, as questões de “gênero” referem-se a “gêneros alimentícios”. Ou seja, à alimentação, ou,  melhor ainda, à falta de alimentação, que é muito mais grave do que questões sexuais e culturais e, consequentemente, agravam fortemente o adoecimento por  aids.

Outra questão que agrava a epidemia local é o fato de os homens se sentirem “imunes” ao HIV. Na realidade, existe poligamia em Bissau. Os homens têm mais de uma mulher e não usam camisinha com nenhuma delas. Ao saberem que suas parceiras têm o HIV, as colocam para fora de casa, transferindo a responsabilidade para elas. Como as mulheres são testadas para o HIV durante a gestação, a detecção do vírus é maior entre elas. Já os parceiros não fazem o teste – afinal, se sentem imunes à doença e esta é não só uma questão de gênero como também cultural e religiosa.

“Aqui, comemos coisas mais baratas, com menos qualidade e variedades,  para garantir a compra de comida dos outros dias.” Esta foi uma das primeiras frases que ouvimos no primeiro diagnóstico da situação local. E quando perguntamos o que contribui para o aparecimento das doenças em Bissau, a resposta foi: “a falta de higiene alimentar e ambiental”.

Bissau apresenta, também, várias deficiências em infraestrutura. Além da falta de água encanada e tratada, a maioria das casas não conta com energia elétrica, nem coleta de lixo efetiva.

Quando uma criança nasce, a mãe soropositiva, muitas vezes, não tem a menor condição de preparar com segurança o alimento que substitui o leite materno. E nem sempre há leite do governo disponível no serviço de saúde. Assim, resta às mães com HIV amamentar seus bebês, pois seu leite é o único alimento disponível. E, assim, elas fazem, aumentando o risco de transmissão vertical do vírus.

Guiné Bissau localiza-se na região central da face oeste da África e é banhada por águas do Oceano Atlântico. Tem 40 anos de independência e não conseguiu ainda estabilizar-se politicamente. Em 2010, houve um golpe político e podemos encontrar a destruição pelas ruas ainda hoje. Guiné Bissau tem uma população de 1.789.392 habitantes. Mais de 20% da população tem o vírus do HIV.

As mulheres ainda são, em grande parte, iletradas, assim como os jovens que não têm perspectivas de futuro — um país pequeno, que vive da pesca e da produção de castanhas, não tem muito a oferece a eles. Isto também prejudica o entendimento sobre a importância da prevenção. Em Bissau, mesmo quando existe a testagem, ou despistagem, como dizem, nem sempre o Programa de Aids  tem os antirretrovirais disponíveis para o tratamento sem interrupção, o que causa “os perdidos de vista”, que são as pessoas que abandonam o tratamento. “Para que testar, se não vamos  poder tratar com adesão garantida?”, eles se perguntam.

Uma característica que me impressionou foi a clareza que os ativistas têm  com relação aos problemas enfrentados, o entendimento de que nem sempre conseguem interferir nos problemas, mas, mesmo assim, mantêm uma força de vontade muito grande para mudar esta realidade.

Sinto-me grata por ter recebido o convite do Departamento de Aids e Hepatites Virais para participar desta missão e levar minha experiência de mulher com HIV/aids para estas pessoas que sofrem muito por conta do preconceito muito mais acirrado que aqui no Brasil. Os binenses são negros, pobres, têm uma política complicada, muita corrupção e, mesmo assim, são pessoas alegres, acolhedoras, fortes, simpáticas e inseridas no ativismo e na luta contra a aids, que é uma prioridade cheia de desafios. Da mesma forma que  é para todos nós, ativistas, independentes do país onde vivemos, da cultura, da religião e de que oceano nos banha.

*Silvia Almeida é ativista do GIV (Grupo de Incentivo à Vida) e do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas. 

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