Dra. Naila
Embora inicialmente vinculado aos homens que fazem sexo com homens
(HSH), particularmente nos países industrializados e na América Latina, o HIV se disseminou rapidamente entre os demais segmentos da sociedade, alcançando, paulatinamente, mulheres, crianças e homens com prática heterossexual.
No estado de São Paulo, embora ainda haja um maior número de
homens notificados com aids, é mais veloz o crescimento da epidemia entre as mulheres. Constata-se isso pela redução da relação masculino/feminino (proporção de casos notificados em homens e
mulheres), que passou de 27 homens para cada mulher em 1984, para 2/1,
a partir de 1996. No estado, o aumento da infecção em mulheres teve
como consequência um maior número de casos em crianças por transmissão
vertical. A obrigatoriedade do oferecimento do teste anti-HIV no
pré-natal (a partir de 1994) e a introdução da quimioprofilaxia com ARV (antirretrovirais) na gestação, no parto e nas primeiras semanas de vida do bebê têm feito cair, progressivamente, o número de crianças infectadas pelo HIV.
De 1980 até junho de 2007, foram notificados 155.302 casos de aids no
estado de São Paulo, dos quais 46.023 são de mulheres. Analisando-se os dados referentes ao sexo feminino, observamos três fases
distintas de maior risco para a infecção do HIV. A primeira vai do início da epidemia até 1986, quando a transmissão pela via sexual era a mais importante. Naquele momento, as parcerias com homens bissexuais eram as mais frequentes, além da transmissão pela transfusão sanguínea. Na segunda fase, de 1987 a 1990, a maior proporção de casos estava relacionada ao uso de drogas injetáveis, quer porque as mulheres fossem usuárias, quer porque fossem parceiras sexuais de homens usuários. Na terceira fase, de 1991 até o presente, a prática heterossexual voltou a ser a principal situação de risco apontada pelas mulheres com aids, agora com uma menor importância relativa dos parceiros usuários de drogas injetáveis e maior proporção de homens com multiplicidade de parcerias sexuais.
Estudo realizado de 1983 a 1992 (em Santos, em 1994), verificou que a principal forma de transmissão do HIV era a prática heterossexual e, dessas, 43,8% relatavam parceria sexual única no momento do diagnóstico e 37,2% foram identificadas como “donas de casa”. Atualmente, tomando-se o total de casos femininos notificados desde
1983, podemos afirmar que a maioria das mulheres, em nosso meio, se
infectou pelo HIV por meio de relações heterossexuais. Sem dúvida, as
questões de gênero, ou seja, as formas diferenciadas de poder
estabelecidas entre homens e mulheres acabam por torná-las mais
vulneráveis à infecção.
Mesmo cientes de que correm riscos de contaminação, muitas vezes a prevenção ao HIV não faz sentido para as mulheres, por elas viverem num contexto de muitos riscos e poucas perspectivas. Outras mulheres julgam, apesar de conhecer as formas de transmissão, que estão livres do risco, pois relacionam o mesmo a situações moralmente negativas. E, finalmente, algumas mulheres que se reconhecem em risco de aquisição do HIV e discutem isto com seus parceiros não conseguem fazer com que haja co-responsabilidade na prevenção. Para reverter todo este quadro é necessário abrir a discussão sobre as questões ligadas à sexualidade e à afetividade nas relações entre homens e mulheres. Apesar da propagada liberação feminina, as mulheres ainda têm um poder de deliberação sobre sua vida sexual muito menor do que o dos homens, quer seja por submissão emocional, cultural ou econômica, com consequente baixa possibilidade de negociação para a adoção de métodos de prevenção às DST/HIV, quer seja pelo
uso regular de preservativos.
Vale destacar que, embora nossas estatísticas oficiais não apresentem
nenhum caso de transmissão do HIV entre mulheres que fazem sexo com
mulheres, a maioria dos profissionais e serviços não costuma investigar a existência de relações homossexuais femininas, partindo do pressuposto de que a ocorrência da infecção pelo HIV ou outra infecção sexualmente transmissível deve-se a relação heterossexual. Ainda que se reconheça o maior risco de aquisição das doenças sexualmente transmissíveis nas relações com penetração, não podemos minimizar a possibilidade de risco das relações homossexuais femininas. O Programa Estadual de DST/AIDS tem incentivado a testagem anti-HIV da população, buscando realizar diagnóstico precoce, e a ampliação de projetos de prevenção em todos os segmentos da população, assim como investimento no trabalho de adesão ao tratamento com antirretrovirais, para as pessoas já diagnosticadas. Entretanto, apenas um diálogo aberto e claro, que leve as pessoas a entenderem a possibilidade de transmissão por meio das relações sexuais desprotegidas como um fato concreto e não relacionado apenas a alguns grupos, pode fazer as pessoas, em particular as mulheres, refletirem sobre a real importância da adoção de medidas de prevenção às DST/HIV/aids em suas vidas.
Dra. Naila Janilde Seabra Santos é gerente de Prevenção do CRT DST/Aids-SP.
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