Paola Rolletta
Luzete Chaúque tem 28 anos, dois filhos, um marido e vive na periferia de Maputo, em Moçambique. Faz parte do grande número de soropositivos no país, mas tem sorte porque pertence à minoria que tem acesso aos anti-retrovirais. Em Moçambique são um milhão e quinhentas mil as pessoas infectadas, as estimativas dizem que cerca de 400 mil precisam de anti-retrovirais, mas hoje apenas 20 mil têm acesso.
“Em 2003, tive a segunda gravidez. Fui à consulta pré-natal na Matola 2, onde existe o programa da Comunidade de Santo Egídio da prevenção da transmissão vertical. No pré-natal, pediram-me se queria fazer o teste do HIV. Aceitei. O resultado deu positivo”, conta-nos Luzete. “Foi muito doloroso. Não queria acreditar. Naquela altura, só se ouvia dizer que ser HIV positivo era uma condenação à morte.”
“O meu marido ficou muito assustado, mas me ajudou a tomar os anti-retrovirais porque não queríamos ter um bebê com SIDA”, conta Luzete, hoje uma das ativistas do programa DREAM ((Drug Resource Enhancement Against Aids and Malnutrition). “O meu filho é soronegativo.”
Esta é história de um dos 7 mil pacientes do programa DREAM que recebem tratamento anti-retroviral em Moçambique. O programa é levado a cabo pela Comunidade de Santo Egídio desde 2002 e conta já com 10 centros e 3 laboratórios de biologia molecular no país, inseridos no circuito internacional de controle de qualidade. Atualmente, são cerca de 14 mil as pessoas monitoradas no programa.
Este modelo revolucionário de controle, prevenção e tratamento do HIV converteu-se nos últimos anos no modelo mais eficaz de intervenção para garantir o acesso gratuito à terapia na África subsaariana – está implementado no Malauí, na Tanzânia, na Guiné Bissau, na Guiné Conacri, em Angola e está prevista a replicação em outros países africanos -, com custos organizativos e gestão compatível, com pessoal local treinado in loco e no estrangeiro. São sete os cursos de formação pan-africanos organizados até agora, tornando Moçambique o país pioneiro do programa.
Desde que começou, os resultados confirmam as grandes esperanças. 97% dos bebês nasceram sãos de mães soropositivas tratadas com a tri-terapia (o mesmo coquetel usado no ocidente). Ao mesmo tempo, 90% das pessoas podem voltar a ter uma vida normal. A taxa de adesão é de 95%, um número que ultrapassa as porcentagens da Europa e dos Estados Unidos de América para as pessoas que tomam anti-retrovirais. A Organização Mundial da Saúde considera DREAM como um dos modelos de luta contra a SIDA em África e publicou recentemente um estudo de caso sobre o programa.
Uma das prioridades do programa são as grávidas. Com elas joga-se o futuro do continente, sendo o pilar da família africana. O objetivo é evitar a transmissão vertical e tratar as mães para não aumentar o número exponencial de órfãos. Desta maneira se corta a epidemia de raiz, impede-se que o bebê nasça infectado e se pode salvar toda uma família. Ao mesmo tempo em que trata a mãe com a tri-terapia, oferece-lhe um apoio nutricional e educação sanitária. É um acompanhamento personalizado feito por meio dos ativistas da Associação “Mulheres para o DREAM”, mulheres e homens soropositivos e não só, que se dedicam à assistência domiciliária.
Uma longa história liga a Comunidade de Sant’Egídio a Moçambique: desde as ajudas humanitárias no início dos anos 80, até à mediação oficial entre a FRELIMO e a RENAMO que levou ao Acordo Geral de Paz assinado em Roma a 4 de Outubro de 1992. A ligação especial com Moçambique levou a Comunidade de Sant’Egídio a escolher este país como o primeiro a implementar o programa DREAM, em colaboração com o Ministério da Saúde de Moçambique.
*Síndrome da Imunodeficiência Adquirida – nome dado à Aids em Moçambique.
Paola Rolletta é oficial de imprensa do programa DREAM ((Drug Resource Enhancement Against Aids and Malnutrition)
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