MULHERES COM AIDS E CRIANÇAS TAMBÉM! – Nair Brito – Pedagoga, Ativista do GIV – Grupo de Incentivo à Vida – É portadora há 10 anos

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DIREITOS REPRODUTIVOS e TRANSMISSÃO VERTICAL
MULHERES COM AIDS E CRIANÇAS TAMBÉM!
Nair Brito 

Quero nesse artigo abordar dois temas que hoje, dentro da epidemia da AIDS, devem ser levados em conta por toda a sociedade. O objetivo é favorecermos o acesso das mulheres com HIV ou AIDS a um serviço público de saúde de qualidade e diminuirmos a incidência de HIV entre as crianças. Os temas são:  os direitos  reprodutivos das mulheres que estão portadoras de HIV ou doentes de AIDS e a transmissão vertical (transmissão do HIV de mãe para filho). Veremos, por intermédio dos relatos colhidos durante uma capacitação para mulheres com HIV/AIDS da região norte e centro-oeste em novembro de 2002, em Brasília, como os temas Mulheres, AIDS e Crianças estão na pauta de todo/as nós e precisam ser debatidos exaustivamente.

Começou assim…


Em 2001 nove mulheres com HIV/AIDS, do movimento social organizado de todo o Brasil, com o apoio financeiro da Coordenação Nacional de DST/AIDS do Ministério da Saúde, planejaram e executaram em todo o território nacional, o projeto “CIDADÃ POSITHIVA”. O objetivo foi a capacitação de mulheres com HIV/AIDS para exercerem ações, que melhorem a qualidade de vida das mesmas. Nossa estratégia para atingir essa meta foi a realização de três treinamentos por região. O primeiro foi em Curitiba, o segundo em Natal e o terceiro em Brasília.
 
Durante a oficina de Brasília, em novembro de 2002, cujo tema foi “Direitos Sexuais e Reprodutivos” foram relatadas várias condutas de violência aos direitos reprodutivos das mulheres com HIV/AIDS.
  
Os relatos mostram a total falta de capacitação técnica dos profissionais atuantes nos serviços públicos de saúde no aconselhamento e acompanhamento – gravidez, pré-natal e pós-parto – das  mulheres soropositivas para o HIV. A conseqüência deste despreparo é o oferecimento da  esterilização como única opção para o planejamento familiar, desrespeitando assim, os seus direitos , entre eles o de ter ou não filhos e outro desastre desse despreparo e falta de políticas de atenção a essas mulheres é o nascimento de crianças com HIV.


Fizemos um relatório ao longo do encontro em Brasília com os depoimentos dessas mulheres, encaminhando-o ao ministério público, por intermédio da coordenação Nacional de DST/AIDS do Ministério da Saúde. Neste documento denunciamos a violência cometida contra mulheres de todo o pais, nos seus direitos reprodutivos. Nele exigiu-se  providências para que tais práticas fossem abolidas através de instâncias já estabelecidas ou mesmo da criação de setores específicos, tais como:  Disque-denúncia ou comissão de ética que responda pelo atendimento integral dessas mulheres. Infelizmente até o momento não obtivemos respostas a esse encaminhamento. Vejamos então a seguir os  relatos de mulheres portadoras de HIV/AIDS que participaram do evento. 


Os relatos… (todos os nomes são fictícios)


“ O sonho da maternidade enfrenta o HIV e …perde. A médica me disse:  É melhor você esquecer, não há possibilidades do bebê nascer sem o vírus. Nossa, que palavras cruéis, destruidoras. Tanto tempo, 3 anos preparando a vida para um filho e agora ele não pode mais vir. Como duvidar de uma médica que jurou trabalhar em favor da vida. De tudo de catastrófico que circunda o HIV, esse momento foi o pior – não poder ser mãe. Que dor, que vazio… que impotência… QUERO SER MÃE! Hoje sei que não é assim, posso ser mãe, é meu direito, mas preciso que ele seja respeitado. Preciso de  atendimento de qualidade em todos os aspectos. Não quero contaminar o mundo, colocando nele alguém infectado. Quero poder ver a extensão da minha vida…o meu bebê nos meus braços. Se Deus me permite a concepção nenhum homem ou mulher pode tirar isso de mim.” (Andréa – Goiânia)


“No último trimestre no ano de 1999 engravidei. Mesmo sem ter sido planejado, a alegria foi imensa. Preocupei-me em fazer um excelente acompanhamento pré-natal, mas houve falhas: não me foi pedido teste de HIV e  nem eu questionei isso, mesmo porque era casada e meses antes numa campanha de prevenção havia me submetido ao exame, que veio negativo. O assunto foi encerrado num pensamento errôneo, quando acreditei que estava segura. Um terrível engano, porque no decorrer de minha gravidez, num outro centro de saúde fiz outro teste. Este veio positivo. Me desesperei. Confesso que naquele momento não queria estar grávida, mas o desejo de ser mãe era maior e já amava por demais aquele fruto de um lindo amor que crescia em meu ventre. Desde já recebi a medicação para evitar a contaminação do bebê. Comuniquei ao médico que praticamente não quis mais acompanhar a gestação. Aconselhou-me a procurar o serviço de DST/AIDS. Mudei de cidade e quase no fim da gestação, procurei atendimento particular já que a cesária era indicada para o meu caso e pelo SUS estava havendo dificuldade. Recebi todo acompanhamento e desde então não fui discriminada. Meu filho recebeu a medicação e fui encaminhada ao hospital de tratamento e acompanhamento de referência. Muitas dúvidas foram esclarecidas, outras não… No convívio naquele hospital, com uma pequena amostra de mulheres portadoras do HIV assim como eu, percebi que mulheres foram induzidas a desistir do direito de ser mãe a partir do diagnóstico de sorologia positiva para HIV. Elas não puderam escolher, já que depois de seus partos foram laqueadas. Pelo que conversei com essas mulheres, talvez por N motivos não argumentaram quando esta proposta lhes foi apresentada e o processo seguiu. Talvez por achar mais cômodo e medo de enfrentar tantas dificuldades que ainda existem na saúde da mulher e o esclarecimento que é um direito da mulher portadora ou não de planejar ter ou na filho(s).”  (Durvalina – Cuiabá)


“ O início da soropositividade é complicado, ainda mais quando se tem 24 anos e nenhum filho. Senti minha vida reprodutiva passar pelos meus dedos e hoje sofro; por saber que, não havia necessidade da retirada de trompas e ovários. Não sei, até hoje, se a falta de respeito, ou a negligência de alguns “profissionais”; ou vou mais longe, o medo e a discriminação, levam essas pessoas a fazerem o que querem com nossas vidas, sem nos consultarem. E hoje estamos aí, nós mulheres, vivendo, e com toda sinceridade “VIVENDO” bem; tomando os anti-retrovirais, e com o pensamento sempre de sermos mães!!! Ou melhor que um dia possamos “ser mães”. (Juliana – Palmas)


“Em julho de 1998, havia 3 anos que sabia da soropositividade. Engravidei quando tomava os anti-retrovirais só há dois meses. Quando expliquei a situação ao médico (Infectologista/clínico geral), me foi respondido que havia duas opções: – Abortar, pois em conseqüência de ser soropositiva iria ficar muito fraca com a gestação e o parto. – E que poderia continuar e arcar com as conseqüências, pois com certeza poderia vir a ficar muito mal. Procurando o ginecologista (infectologista) que faria o pré-natal, como faria qualquer mulher ele disse que tudo ficaria bem. Ele acompanharia o pré-natal, que faria uma cesariana programada e que teria que me laquear, pois as mulheres HIV+ não poderia ter mais que uma gravidez. OBS: O CD4 nunca ficou abaixo de 500/ml e a carga viral até hoje só é indetectável.”  (Cristina – Campo Grande)


“Tenho 30 anos. Em 1995 descobri que estava contaminada com o vírus HIV. Estava grávida de +ou- 5 meses. Como fazia o acompanhamento de pré-natal, relatei o fato ao obstetra que frisou em meu prontuário “HIV positivo”. Como o prontuário não possuía capa o fato ficou exposto a todo funcionário que manuseava o mesmo. Todos os meses quando voltava a maternidade, o funcionário do dia fazia questão de mostrar ao colega minha sorologia. Aquilo me incomodava até um certo ponto, mas nunca manifestei meu desconforto. Como toda maternidade pública de Goiânia tem um médico plantonista, sendo que quando entrei em trabalho de parto, o médico plantonista não era o meu obstetra. Eram dois (um homem e outro mulher) os médicos que estavam de plantão. Só que quando eles viram a minha sorologia, os dois foram unânimes em dizerem que não poderiam fazer o meu parto, sob o pretexto de que eu estaria colocando em risco a saúde das outras mães ali internas. Quando questionados o porquê do risco, eles imediatamente disseram que não havia vaga na maternidade. Disseram que eu deveria ter meu filho no Hospital de Doenças Tropicais, não me dando nenhum encaminhamento para isso. Com o medo de novamente ter o atendimento negado, quando me dirigi a outra maternidade omiti o fato de ser portadora. Só que mais uma vez todos os leitos estavam ocupados. Desta vez saí com encaminhamento para outra maternidade. Quando cheguei à 3ª maternidade, estava no início da dilatação uterina. Fui encaminhada para a enfermaria e aí consegui ter atendimento médico para ter meu filho em segurança.” (Dirce – Goiânia)


Depois dos relatos…

TRANSMISSÃO VERTICAL
O que é Transmissão Vertical?
É a transmissão do HIV da gestante para o bebê.


“ O crescimento da epidemia de AIDS entre as mulheres levou, conseqüentemente, ao aumento do número de casos em crianças, pois a grande maioria é devido à transmissão vertical. Existem no estado de São Paulo, atualmente, 3.372 casos notificados em menores de 13 anos e destes, 2.839(84,2%) são devidos à transmissão vertical (Informação retirada do livreto “Considerações sobre o Aleitamento Materno e o HIV” produzido pela Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo PEDST/AIDS-SP,2002)”


Como é transmitido o HIV da mãe para o filho?
*Vários estudos demonstram que:
65%, ocorre durante o trabalho de parto e no parto propriamente dito
35% ocorrem intra-útero, principalmente nas últimas semanas de gestação
7% a 22%(Dunn et al, 1992) na amamentação.


Nesse final de artigo deixo algumas questões para seguirmos pensando junto/as e transformando a dor dessas mulheres, algumas por verem seus filhos nascerem com HIV sem terem a chance de evitar isso durante o pré-natal, durante o parto e pós parto e outras por nunca mais poderem ter filhos devido a laqueadura feita  por profissionais de saúde usando o argumento de estarem portadoras de HIV e por isso não podem ter filhos.
– Sabemos como diminuirmos as chances dos bebês nascerem sem HIV, então porque ainda são altos os números de crianças que nascem portadoras de HIV?
– Em muitos serviços de pré-natal em todo o país ainda não tem o teste para o HIV para oferecerem as gestantes, qual é a explicação dos governos para essa negligência?
– Não existem campanhas nos rádios, jornais e televisão falando da importância do teste no pré-natal , qual o motivo?, será que os governantes não conseguiriam atender essa demanda?


Estaremos, através do movimento organizado de mulheres com HIV/AIDS em todo o Brasil, reunindo denuncias de práticas de violência contra nós e seguiremos gritando a todos os cantos até que nos ouçam e até que nenhuma mulher com HIV/AIDS relate esse tipo de crime e nem mais uma criança nasça portadora de HIV nesse país.

Nair Brito, 42 anos, pedagoga, ativista do GIV – Grupo de Incentivo à Vida. É portadora do HIV há 10 anos. Telefone para contato: (0xx11) 3242-5819

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