MULHERES, AIDS E RELIGIÃO – Yury Puello Orozco – Teóloga e Doutoranda em ciências da religião – Integra a equipe da ONG Católicas Pelo Direito de Deci

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Yury Puello Orozco

Diferentes estudos estão mostrando a relação entre as mulheres e a religião. Alguns elementos de analises nos mostram que as mulheres devido seus papéis de esposa e mãe de família teriam maior afinidade com a religião,na medida que são eles as que tem que buscar soluções para os problemas domésticos, são elas que fazem promessas, mesmo quando é para o marido ou os filhos cumprirem. As dificuldades cotidianas, as preocupações com a sobrevivência e com a qualidade de vida dos familiares são uns dos motivos que leva as mulheres a participar mais intensamente da vida religiosa. O que identificaria mais as mulheres com a religião sobretudo com a visão cristã do mundo, é o “ser para os outros”, a “doação”, o desprezo do próprio desejo frente aos desejos do marido e dos filhos; é a aceitação de um lugar secundário na distribuição de recursos e benefícios grupais. A fragilidade, a intuição, a abnegação, a docilidade, a sensibilidade, atribuídas à mulher, “passam a ser tomadas como parte da natureza feminina, sendo assim a natureza do trabalho feminino seria mais compatível com a participação religiosa do que com as atividades públicas.
Também a participação os espaços religiosos seria uma busca, por parte das mulheres, de relações de amizade, compreensão, diálogo e comunicação. Lugar de realização pessoal; elas têm adquirido autonomia, segurança; elas se sentem valorizadas. Mas também os espaços religiosos seriam um dos poucos espaços extra-domésticos que os maridos permitiriam às mulheres, freqüentar.
O impacto do vírus HIV e da AIDS é maior nas mulheres. Os estereótipos relacionados com o HIV e com a AIDS têm reforçado a idëia de que as mulheres são as culpadas pelo avanço da epidemia, como também as cargas sociológicas e sociais são mais pesadas para as mulheres que para os homens.
A culpa que sentem as mulheres é resultado de uma forma de educação em que o catolicismo tem tido um papel fundamental, seja nas mitologias, seja nas tradições ou nas elaborações teológicas. Os corpos das mulheres aparecem representando a culpa, a tentação, o pecado, por isso não é de se estranhar que, quando se trata de encontrar explicação ou justificação para acontecimentos fortes, como é o caso do contágio por HIV e AIDS, muitas vezes aparecem os corpos femininos como os responsáveis por estes acontecimentos. Historicamente, o corpo da mulher tem significado controle, suspeita e restrição. A partir de uma análise de gênero pode-se falar de uma culpa sem responsabilidade pessoal, resultado da própria cultura
Não podemos ignorar a grande contradição do espaço familiar, que, supostamente, deveria ser o espaço do afeto, da intimidade, o lugar do crescimento do amor conjugal. Contrariamente ao que dele se espera, tem-se convertido também, no lugar onde, escandalosamente, se cometem atos de violência contra seus membros, especialmente os mais desprotegidos, como mulheres, meninas(os), anciãs(ãos), enfermas(os), deficientes físicas(os), etc.
É no espaço da família, tradicionalmente definido como o lugar legítimo para a vivência do sexo, da procriação, das relações afetivas, da segurança, onde um número considerável de mulheres se têm encontrado com o vírus HIV e com a AIDS.
O discurso sobre a família, sobre a dona de casa, casada, reforçou a falsa crença de que estas mulheres estariam mais seguras, menos expostas ao vírus dentro de casa, que eram as(os) outras(os) que estariam mais propensos ao vírus.
A abordagem da família, referência importante do catolicismo, lugar que favorece a manutenção e a criação de valores, revela-nos que, em geral, as mulheres, pelo que esta instituição representa para elas, não se sentem em situação de risco, porque não se consideram promíscuas, a casa lhes brinda segurança, o casamento é a prova do amor e respeito que o marido tem por elas.
O casamento representa, para as mulheres, uma aliança feita com um homem a partir de uma experiência de amor e, segundo a Igreja, essa aliança de amor deve perdurar “até que a morte os separe”. Mais a partir de vivências concretas de casamentos que o ideário da Igreja vem sendo questionado. O problemático, não é o questão de o ideário da Igreja ser ou não levado à prática; o conflito se coloca no ocultamento que os valores propostos fazem das estruturas androcêntricas revestidas, neste caso, de pressupostos religiosos que fragilizam, muito mais, as mulheres, pelo desenvolvimento de relações desiguais e destrutivas.
No catolicismo existe uma longa tradição de conflito com a sexualidade, conflito que se tem agudizado, ainda mais, com o aparecimento da AIDS. É o corpo o lugar de manifestação de nossos desejos, de nossa afetividade. É ele o lugar privilegiado onde se concretizaram os discursos negativos sobre a sexualidade. Foi o corpo da mulher que se desprezou com mais força e vigor, trazendo, como conseqüência, sobre ele, o desconhecimento e o silêncio.
Como afirmamos anteriormente, os estudos mostram que a tradição histórica da Igreja Católica tem apresentado uma visão negativa e restritiva da sexualidade. Com o aparecimento da AIDS, a Igreja Católica volta, com muito mais força, a pregar a necessidade da castidade e da abstinência como soluções radicais para enfrentar esta problemática, sem levar em conta estudos e pesquisas que revelam que o campo da sexualidade não é algo isolado na vida das pessoas, mas está condicionado por uma multiplicidade de fatores que o fazem muito mais complexo do que parece. Neste sentido, a proposta que faz a Igreja, da abstinência, como prevenção da AIDS, sem levar em conta a realidade concreta, pode levar ao contágio e à morte, especialmente das mulheres, que, como elas mesmas se percebem, estão muito mais abertas a receber seus ensinamentos:
O vírus HIV e a AIDS encontram, na sexualidade desprotegida, uma das principais vias de entrada no corpo feminino. Essa sexualidade situa-se num corpo construído por uma cultura, por crenças, valores e subjetividades.
Após o Concílio Vaticano II houve abertura a uma visão positiva do exercício da sexualidade, desvinculando-o da procriação, porém, permanecem, contudo, o matrimônio e a família, como único espaço legítimo para a relação sexual.
A maioria das mulheres expressa desacordo com a proposta da Igreja Católica sobre o uso dos métodos chamados naturais como formas de prevenção, e a proibição do uso dos métodos chamados artificiais, com o argumento de que estes estariam contrariando as leis naturais e, portanto, não são apropriados à moral sexual católica.
Uma idéia freqüente entre as mulheres é a relação entre sexualidade e reprodução, como “uma coisa comum”. Isso significa que, para as mulheres, a sexualidade está, naturalmente, logicamente, direcionada para a produção da vida. E segundo elas, esse é o grande poder que tem nas suas mãos: a maternidade, a produção da vida; sem esse poder a humanidade acaba.
A maternidade é um assunto de muita importância, quando se trata da situação da AIDS entre as mulheres. A maternidade é um tema crucial, sobretudo quando se trata de discutir as relações de gênero, porque ainda, aparece como o atributo principal das mulheres. É, sobretudo, uma representação das sociedades ocidentais, nas quais se pensa que as mulheres devem ser mães porque, somente assim, podem ser verdadeiras mulheres.
Neste sentido, frente à constatação de que uma das principais vias de contágio do HIV e da AIDS são as relações heterossexuais, que a transmissão do vírus de mãe para filho é bastante preocupante, até que ponto as mulheres ainda acreditam na idéia de que, para serem mulheres de verdade, devem ser mães.
O tema da infidelidade é um assunto importante quando se trata da prevenção do contágio do vírus HIV e da AIDS, tanto pelo significado social, como pelo diferente significado que representa para homens e mulheres.
A frase usada no rito do casamento, “unidos na dor e na doença, até que a morte os separe”, que foi citada pelas mulheres nos seus depoimentos, representa o ideal simbólico das mulheres casadas; mas também, é usada para controlar e julgar as suas práticas e os seus comportamentos.
Em relação à problemática da AIDS entre as mulheres, o amor é uma categoria que ofusca o risco da contaminação. Existe uma incompatibilidade entre o amor (felicidade, prazer, alegria, entrega) e a AIDS (desvio, morte, dor, sofrimento, desvalorização) desde o ponto de vista cultural. A sexualidade fica no ponto mediano que une o amor e a doença, mediação entre essas duas realidades incompatíveis pela cultura. A AIDS não pode ser pensada num contexto individualizado e excluído das vidas das pessoas.
Percebemos o significado ambíguo e contraditório, para não dizer nocivo, que tem, para as mulheres, a crença no amor, da forma como é proposta na nossa sociedade; num contexto de desigualdade social, econômica e de gênero, em que as mulheres são mais propensas a levar a sério certos valores, que se tornam, na maioria das vezes, como é o caso da problemática da AIDS, num grave obstáculo para desvendar caminhos mais efetivos para a prevenção do vírus HIV e da AIDS. Desta forma, as relações sexuais realizadas dentro do casamento, as que estabelecem atitudes de confiança no marido, atravessadas pelo amor e a fidelidade, geram, nas mulheres, um sentimento de que estão protegidas e, portanto, não correm nenhum risco.
Para as mulheres entrevistadas, a experiência religiosa tem um grande significado. Podemos perceber que a religião tem estado presente nas suas vidas, ao lado de outros fatores, dando-lhes sentido à vida no meio da AIDS, fortalecendo-as, consolando-as, oferecendo-lhes, inclusive, oportunidades de realização pessoal.
Mas, também a religião, nas vidas destas mulheres, aparece como o elemento que as torna vulneráveis. Os valores propostos pela Igreja Católica na maioria dos casos, são incorporados como ideais de vida por estas mulheres. As mulheres nas suas falam afirmaram que suas vidas estavam regidas por estes valores. Não obstante, elas mesmas descobrem, a partir do aparecimento da AIDS nas suas vidas, que não existem condições reais para sua realização.O lugar e as funções que a Igreja Católica propõe para as mulheres, de certa forma vêm reforçar as atribuições exigidas, socialmente, das mulheres, e que as colocam numa situação de inferioridade e submissão e por tanto em uma situação de risco.

Yury Puello Orozco é teóloga e doutoranda em ciências da religião. Integra a equipe da ONG “Católicas pelo direito de decidir” (www.catolicasonline.org.br) Telefone: (0XX11) 3107-9038 e-mail: cddbr@uol.com.br

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