Hoje, dia 24 de março, é o Dia Mundial de Luta contra a Tuberculose. E, nesta data emblemática, o Ministério da Saúde implanta oficialmente a rede de teste rápido para a tuberculose (TB). O Brasil inicia uma nova era no controle da doença, já ocupando a segunda posição entre os países que mais utilizam a nova tecnologia.
Pode parecer algo corriqueiro para os profissionais de saúde que já trabalham com a aids e as pessoas vivendo com o HIV e aids (PVHA), familiarizados com testes rápidos, contagens de CD4, carga viral e biologia molecular. No entanto, para aqueles que lidam com a TB e as pessoas afetadas por essa doença é a primeira inovação diagnóstica com impacto na saúde pública desde a descoberta do bacilo de Koch, em 1882, data inspiradora deste Dia Mundial.
Outras inovações também surgem neste cenário, trazendo esperanças para que o Brasil e o mundo possam, finalmente, controlar essa doença que nos desafia desde os primeiros registros da história. No campo da terapêutica, novas drogas já estão disponíveis para o tratamento da tuberculose resistente, como é o caso da bedaquiline e da delamanida, de novos regimes terapêuticos mais curtos e eficazes que estão no pipeline do tratamento da tuberculose e da infecção latente da TB.
O Programa Nacional de Controle da Tuberculose tem participado das discussões internacionais sobre a adoção dessas novas drogas e o Ministério da Saúde deve adotar, talvez ainda esse ano, um esquema de tratamento encurtado da infecção latente de TB, com isoniazida e rifapentina, em 12 doses.
Além dessas inovações nos campos do diagnóstico e do tratamento, a recente recomendação de “testar e tratar” (test and treat) anunciada pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, do Ministério da Saúde, coloca o país novamente na vanguarda da ampliação do acesso aos ARV, junto à Austrália, Canadá (British Columbia), Estados Unidos, França e Holanda. À medida que seja adotada e atinja uma ampla cobertura, essa recomendação deve impactar profundamente na história natural da tuberculose no Brasil, uma vez que essa doença se encontra extremamente concentrada nas PVHA, bem como naquelas populações socialmente mais vulneráveis.
Como a tuberculose se manifesta como uma das principais doenças oportunistas e a mais letal da atualidade nas PVHA, a detecção precoce da infecção pelo HIV e o tratamento imediato evitarão a depleção dos anticorpos CD4 e a elevação da carga viral, e, consequentemente, impedirão o adoecimento por tuberculose. Associados ao tratamento da infecção latente (provavelmente já com os novos regimes) pode-se vislumbrar a diminuição da incidência da tuberculose nesta população, bem como da mortalidade por esse agravo.
É nesse cenário otimista, baseado em medidas concretas, que o Ministério da Saúde apresentará em maio, na Assembleia Mundial da Saúde, em Genebra, a Estratégia Global de Controle da Tuberculose pós-2015, um plano ousado e inspirador, baseado nas inovações relacionadas ao diagnóstico, tratamento, pesquisa e proteção social – este último inspirado no SUS e seus princípios de universalidade, integralidade e gratuidade.
O tempo nos dirá se estamos realmente vivendo uma mudança de paradigma no controle da tuberculose. Inovação e articulações intra e intersetoriais são as palavras de ordem do momento. No setor saúde, a parceria no controle da aids é imprescindível e simbiótica. Nos demais setores, a articulação com os vários ministérios e secretarias de estados e municípios que trabalham com a determinação social da TB é fundamental. Nas demais áreas da sociedade civil, a academia, com a produção de conhecimento, e o ativismo, com a cobrança de suas necessidades e o controle social, são como um necessário “alter ego” do poder público.
Que fatos novos como estes possam ser comemorados a cada 24 de março, até que não haja mais mortes por TB para lamentar.
Draurio Barreira, médico sanitarista epidemiologista, Coordenador do Programa Nacional de Controle da Tuberculose do Ministério da Saúde
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