Hugo Hagström
Resolvi fazer um paralelo entre o espaço (linhas) que posso usar neste texto (40) e as linhas da vida (apesar de eu já ter 45 linhas). As linhas que existem na vida podem ser planejadas, inesperadas, difíceis de serem trilhadas e, às vezes, uma espécie de deslizar de patins. Mas sempre devem ser adaptadas por nós.
Há 20 anos venho aprendendo a entender essas tais linhas. A descoberta do HIV veio em uma época em que, geralmente, o fim das linhas era um fato quando surgia a doença. Eu tinha 24 para 25 anos quando me deparei com a AIDS. AIDS, era só assim que falava na época. Entendi que o auge da minha juventude havia sido destruído por completo.Eu havia recebido um outro rótulo. Agora, além de homossexual era também aidético.
Quero expressar uma opinião que ainda hoje sei que muitos companheiros discordam. Vou falar sobre o maior preconceito que enfrentei durante quase 12 anos: o autopreconceito. Com estas palavras não estou negando haver os preconceitos externos, apenas relato o que me consumiu mais. Eu tinha muita vergonha de minhas linhas estarem “sujas”. Eu não assumia a condição de portador do vírus HIV e fui criando mecanismos mentirosos para burlar essa realidade. Com o passar do tempo, meu organismo foi se deteriorando e, em final de 1996, eu estava em estado terminal. Com certeza eu havia alcançado aquele diagnóstico que me fora dito em 1985: “você tem AIDS e mais uns 6 meses de vida”. 12 anos haviam se passado e agora a morte parecia certa. Quero deixar claro que eu, na verdade, não sirvo como padrão, como referência, na medida que nessa época grande parte de meus amigos infectados morreram rapidamente enquanto eu, até aquela data havia resistido. Mas hoje tenho certeza que não foi só de AIDS que eles morreram. Foi também de abandono familiar, de exclusão social, do estigma causado pela sorologia positiva e, principalmente, de culpa e vergonha. Ao contrário dessa “regra”, eu tive todo tipo de apoio: da família, dos amigos, do meio profissional, enfim, tudo o que constituía o meu universo. Mas durante quase 12 anos eu não permiti que tantas boas energia penetrassem e anulassem meu preconceito.
Em 1996 a medicina entrou em uma nova era no tratamento do HIV/AIDS. Havia sido descoberta a associação de medicamentos, o coquetel. Claro que então eu não conseguia tomá-lo, porque era impossível engolir os remédios já que eu nem havia engolido o fato de ser HIV positivo. Mas no final desse mesmo ano (1996) fui internado às pressas e já não respondia por mim. Quando se está internado com o quadro que eu apresentava o tratamento em geral acontece independente da vontade do paciente. Durante 4 meses de internação no hospital e mais alguns meses sendo atendido em casa — e depois de 12 anos cultuando a morte próxima — mudei meu olhar, meus preconceitos e passei a querer a vida por inteiro. E esse por inteiro incluia o vírus HIV. Após quase um ano de recuperação tomei as rédeas de minhas “linhas”. Passei a aprender a deslizar de patins (com muitos tombos pelo caminho) sobre a minha vida.
Eu acredito em um conjunto de saúdes, que passa pela física, mental, emocional, espiritual e também a saúde cidadã. Entendo que a construção de uma vida é individual e portanto não existem regras que sirvam para todos. Essas linhas aqui relatadas fazem parte do meu universo. Se para muitos um texto na primeira pessoa é sinônimo de megalomania, egoísmo, pretensão, eu entendo que as “linhas” de cada um podem ser reconstruídas respeitando os valores individuais. Quero terminar com uma frase feita por um grupo de pessoas que, sendo soropositivas, buscam adesão diária à vida: “Vergonha mata. HIV/AIDS se trata”.
Hugo Hagström é coordenador do Departamento Social do Grupo de Incentivo à Vida (GIV), coordenador da Reunião de Novos e Integração, coordenador do Grupo de Vivência Terapêutica (GVT) e coordeandor do Projeto Cuidador Solidário. Além disso é representante dos usuários no Comitê de Humanização do CRT DST/Aids e indicado pelo Fórum de ONG/Aids do Estado de São Paulo para ser conselheiro do Conselho Gestor do CRT.
Apoios


