Carolina Marisa Tomás Pinto
Meu nome é Carolina, tenho 25 anos, sou angolana e sei do meu estado como soropositiva há seis anos. Em 99, eu tive uma infecção vaginal que não conseguia ser curada e por várias vezes fui ao médico. Fazia a medicação indicada por ele mas não se viam melhorias da infecção. Como a doença persistia, o médico mandou-me fazer o teste para detectar se tinha o HIV e foi a partir desse exame que descobri ser portadora do vírus.
Nessa época, em Angola, quase não se falava sobre o HIV e o pouco falado era que a Aids matava. Durante minha adolescência, fui irresponsável e não tinha informação, defesa e nem consciência das coisas e da vida. Outro gravíssimo problema era a falta de conversa entre meus pais e eu, pois não havia amizade entre nós e, consequentemente, eu não tinha informação nenhuma sobre a sexualidade.
Foi muito duro aceitar aquele resultado. Primeiro, porque não tinha informação nenhuma sobre HIV e não passei por nenhum aconselhamento. Fui ao médico para pegar o resultado do exame e quando ele disse que o resultado era positivo, me explicou algumas coisas sobre o HIV. Mas nesse momento, já não era eu. Só chorava… Encontrei com um senhor amigo que tentava me acalmar e dizia que a vida tinha acabado. Com o passar do tempo comecei a ter forças e coragem para lutar e continuar a viver.
Saí da cidade onde vivia, Luanda, e fui ao encontro dos meus pais, em Porto Amboim, para lhes dizer qual era o meu estado. Fiquei surpresa, porque toda a minha família já sabia do meu resultado e não precisei dizer nada. Soube através da minha irmã que minha mãe sofreu muito com tudo isso e passava o tempo todo chorando, por isso decidi evitar falar sobre o assunto e ficamos como se nada tivesse acontecido.
Aos poucos tive informações sobre HIV e alguns amigos e familiares tentaram me ajudar. Eles tentaram juntar esforços para que eu fosse para a África do Sul e começasse o tratamento, mas isso não foi possível em 1999. Nessa época perdi meu emprego e vivia na casa de uma das minhas irmãs. Ela já não queria que eu morasse mais em sua casa e justificou que precisaria entregar o apartamento alugado para a proprietária. Cada uma de nós tinha que arrumar um lugar para viver e eu estava desempregada.
Em 2000, através do Programa Nacional de Luta contra a Aids eu conheci a LPV- Associação Luta Pela VIHda – e acabei morando lá com mais dois colaboradores. Trabalhava voluntariamente na associação e não ganhava nada. Não tínhamos projeto nenhum, nem financiamento e estávamos numa instalação alugada que, depois de alguns meses, teria o contrato terminado.
Comecei a ficar debilitada e estava sempre doente. Ficava no escritório, pois era lá onde eu vivia sem salário. Havia vezes que não tinha o que comer e meus pais mandavam comida para mim quando podiam. Muitas vezes não conseguia nem ficar de pé para fazer algo para comer.
Em 2001 consegui uma junta médica e passei a ir à África do Sul para começar o tratamento médico pois já estava muito doente, inclusive, tive tuberculose e precisei voltar a Angola para fazer a medicação da doença oportunista que consegui curar com o tratamento.
Fiquei por um período em Porto Amboim, junto dos meus pais, porque precisava estar junto deles devido ao meu estado crítico de saúde. Depois, voltei para Luanda por causa da medicação para a tuberculose e assim que me recuperei voltei para a LPV. Nesse período, havia um projeto e enquadraram-me nele. Então, eu já tinha um emprego e lá conheci um homem que, hoje, é o meu marido. Ele trabalhava lá como logístico e motorista. Já estamos juntos há quase três anos e hoje tenho um filho com ele.
Tenho sido muito forte nesta luta, mas há vezes que tenho fraquezas e sentia que precisava de um motivo forte para continuar a lutar e viver. Então, fiz uma inseminação artificial para ficar grávida e tive todos os cuidados disponíveis para impedir a transmissão vertical. Tudo o que fiz foi com consciência dos riscos, com fé e coragem. Fiz deste jeito porque o meu marido é soronegativo e não desejo que ninguém tenha o HIV, muito menos ele.
Meu filho tem um ano de idade, chama-se Lino Alexandre Pinto Antônio e é o meu tesouro. Aproveito para agradecer a Deus porque no dia 1 de Abril de 2005 recebi o resultado negativo do teste dele para o HIV. Meu Deus, obrigado por tudo que tem feito na minha vida.
Apoios



