Por Robinson Fernandes de Camargo
O PEPFAR (Plano de Emergência do Presidente dos EUA para o Combate da Aids) foi eixo principal das discussões realizadas na 19ª Conferência Internacional de Aids em Washington.
Este tema gravitou em todas as mesas de discussão a que assisti desde estudos de prevenção aos de tratamento. Muito se falou da profilaxia pré-exposição (PREP), circuncisão, microbicidas e novas tecnologias de prevenção, sendo a maioria destes estudos feitos na África. Fiquei com a sensação que nós, aqui no Brasil, temos discutido muito timidamente essas novas ferramentas de prevenção, talvez isso seja fruto do pensamento reinante, do que chamo de “Fundamentalismo do Látex”, cuja toda e qualquer ação passa apenas e tão somente pela camisinha.
Poderia falar ainda sobre a disposição arquitetônica da conferência, que a seu modo mostra, conscientemente ou não, a ordem de importância das coisas.
Começando pelo andar mais alto estava a Sala 1, reservada aos debates e discursos políticos e por onde passaram: políticos americanos, o presidente do banco mundial, representantes da Unaids, artistas e pesquisadores das mais renomadas academias. Quase como um anexo, em um grande salão de exposição, encontravam-se os estandes dos laboratórios farmacêuticos e os governamentais.
No andar logo abaixo, as salas onde os estudos acadêmicos eram mostrados, e em seguida vinha o andar administrativo.
No subsolo, encontrávamos o Global Village com seu ar de favela mundial, caótica e efervescente, onde gente simples e alegre trocava suas experiências de vida, suas dificuldades e suas lutas contra o preconceito e a violência. E é deste lugar caótico que aparece, na Sala 1, uma mulher negra transexual que costumava ser usuária de drogas, trabalhadora do sexo e por vezes presidiária, chamada Sra. Debbie MacMillan que, convidada pela IAS a discursar, cala por mais de vinte minutos a plateia que a assistia. O imenso salão mergulhou num silencio profundo que quase poderia ser tocado. Ela ali naquele momento representava todas as pessoas que vivem com HIV e aids, e em sua exposição impecável mostrava a todos os participantes qual deveria ser o nosso foco. Não o vírus, mas as pessoas por ele infectadas, que elas não eram um problema, mas parte da solução.
A Sra. Debbie conseguiu de forma simples, altiva e firme, nos mostrar o real sentido de estarmos ali. Nem o Sr. Presidente Bill Clinton, quando em seu discurso de encerramento, elogia o trabalho do programa na cidade de São Paulo no controle da transmissão vertical do HIV me deixou mais comovido que as palavras da Sra. Debbie MacMillan.
Oxalá, suas palavras ecoem em nossos corações e mentes por muito tempo.
Robinson Fernandes de Camargo é médico e gerente do Serviço de Atenção Especializada em DST/Aids (SAE) Herbert de Sousa, de São Paulo
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