Medicina Reprodutiva para pessoas com HIV, câncer e homossexuais. Silvana Chedid é ginecologista e especialista em Reprodução Humana

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Por Silvana Chedid

De acordo com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, todos os homens e mulheres têm o direito de constituir uma família, sejam eles casados ou solteiros, heterossexuais ou homossexuais. A Constituição brasileira também coloca o planejamento familiar como livre decisão do indivíduo ou casal.

Desde que comecei a trabalhar com reprodução assistida – há mais de 20 anos – tive a oportunidade de ajudar algumas mulheres que optaram pela maternidade, mesmo sem ter um companheiro estável para compartilhar as dúvidas e emoções da gestação. Gostaria de ter ajudado mais casais de homossexuais a realizar o mesmo sonho. Nos últimos anos, esse panorama tem mudado e, com os recursos dos quais dispomos hoje, temos várias opções de ajuda. Sem dúvida, a explicação para o número ainda pequeno de homossexuais que procuram tratamento para ter filhos está no preconceito que existe em nosso País contra tudo o que não é convencional. Outra situação que era rara e hoje tem aparecido com frequência cada vez maior é a questão dos casais sorodiscordantes, ou seja, em que apenas um dos cônjuges é soropositivo (HIV+).

Até o final da década de 80, quem tinha o vírus HIV não tinha chances de cura e um número enorme de homens e mulheres jovens morreu por consequência da doença. Com o advento das drogas antirretrovirais que, quando combinadas, mostraram-se extremamente eficazes no controle da doença, os pacientes soropositivos tiveram sua qualidade de vida aumentada.

A maior incidência do HIV concentra-se justamente em pessoas em idade reprodutiva que, com a nova expectativa de vida, resolveram ter filhos. Graças aos avanços da Medicina Reprodutiva, hoje é possível ajudar casais homossexuais, mulheres solteiras, pacientes soropositivos e pessoas que sofreram de doenças como câncer, endometriose severa ou doenças autoimunes a realizarem o sonho de terem filhos.

No caso de pacientes soropositivos, é possível utilizarmos técnicas e procedimentos que permitem que o bebê nasça sem o vírus. Quando se trata de um homem portador do HIV, o processo de lavagem do sêmen, que diminui a carga viral do esperma, possibilita às mulheres soronegativas, a partir do espermatozoide do marido, gerarem filhos sem o vírus. A técnica consiste na eliminação do plasma seminal (líquido que “protege” os espermatozoides e que é eliminado na ejaculação), na seleção dos espermatozoides com maior mobilidade e com formato normal e, ainda, na injeção do espermatozoide diretamente dentro do óvulo. Essa técnica, conhecida como ICSI (intracitoplasmic sperm injection ou injeção intracitoplasmática de espermatozoide) permite que apenas um espermatozoide entre em contato com o óvulo. Ao contrário da inseminação intrauterina, em que devem ser inseridos no útero ao menos cinco milhões de espermatozoides, com a ICSI o risco de transmissão do vírus é desprezível. Não há relatos de crianças soropositivas nascidas de mães que se submeteram a esse tipo tratamento.

Quando a mulher é soropositiva, pode ser realizada a inseminação intrauterina ou a fertilização in vitro, para se evitar o contato sexual do casal. A decisão por uma ou outra técnica caberá ao médico especialista, dependendo da avaliação do casal. Durante a gestação, a mulher deverá continuar com o tratamento para que o bebê não seja infectado por via placentária.

Vale lembrar que, no caso do HIV, tanto o homem quanto a mulher que desejam se submeter a tratamentos como estes devem estar em dia com a administração dos antirretrovirais, ter os níveis de carga viral indetectável e, ainda, um acompanhamento médico especializado e rigoroso.

Dra. Silvana Chedid é diretora do IVI (Instituto Valenciano de Infertilidade) de São Paulo, Doutora em Medicina pela Faculdade de Medicina da USP e ginecologista especialista em Reprodução Humana pela Universidade Livre de Bruxelas

Os artigos publicados pela Agência de Notícias da Aids são de inteira responsabilidade dos colaboradores e não expressam obrigatoriamente as opiniões desta agência.

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