Mandela ‘salvou´ a cúpula europeia no País de Gales em 1998. Milton Blay é jornalista e jurista

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Por Milton Blay

Eu vi Nelson Mandela de perto uma única vez na vida. Foi em Cardiff, no País de Gales, em junho de 1998, por ocasião de um encontro de chefes de estado da Europa. Normalmente, as cúpulas europeias são chatérrimas. Aquela, de Cardiff, era particularmente importante porque iria tratar da união monetária, da criação do euro. Mas, como sempre, os europeus não estavam de acordo uns com os outros.

Diante da possibilidade de fracasso, o então secretário do Foreign Office, Robin Cook, decidiu convidar Nelson Mandela, que era o presidente da África do Sul e unanimidade mundial. A cúpula estava salva da rotina.

Madiba participou do almoço que fechou o encontro, ao lado dos 15 presidentes e primeiros-ministros. Mas a festa aconteceu nas ruas. A fria população britânica transformou-se em multidão para saudar o velho leão. Dizem que só a princesa Diana, em sua primeira visita ao País de Gales, recebeu tamanho carinho.

Mandela recebeu o título de cidadão de Cardiff, na prefeitura. Depois percorreu a cidade, boa parte a pé, apesar de seus 79 anos. Distribuiu abraços, beijou crianças, cantou, dançou, vestindo uma de suas tradicionais camisas estampadas. Ele próprio parecia uma criança. Não parava de sorrir.

Diante da plateia de políticos e jornalistas engravatados, ele evocou a sua luta contra o apartheid e sobre o futuro da África do Sul. Otimista, falou de paz e reconciliação entre pretos e brancos e confirmou que abandonaria as suas funções ao final de seu mandato, em 1999. “Afinal”, disse ele, “um octogenário não deve se ocupar de política”.

Ele era contra a reeleição. Aliás, nunca mais se intrometeu na vida política sul-africana. Enfim, um dos momentos mais bonitos, mais marcantes desta visita, para mim pelo menos. Mandela falou de seus prazeres. O maior de todos: ver o pôr do sol ouvindo Haendel ou Tchaikovsky.

Um ano depois, conversando com o presidente Chirac, no bar do hotel Sheraton, no Rio de Janeiro, lembrei da reunião em Cardiff. Ele, então, me disse: “Nous avons eu la joie et le privilège de rencontrer Nelson Mandela” (Tivemos a alegria e o privilégio do encontro com Nelson Mandela).

Hoje, Paris recebe 40 chefes de Estado e de governo da África para falar de economia. Aids, que ja foi assunto em pauta em outras cúpulas franco-africanas, é um assunto relegado ao esquecimento. A África é o continente mais atingido pela doença. Ao abrir o encontro, François Hollande, o presidente francês, prestou homenagem a Nelson Mandela. Foi respeitado um minuto de silêncio.

Segundo os últimos dados disponíveis, a África do Sul tem 6 milhões de pessoas infectadas pelo HIV. Isso representa 11% da população do país.

Milton Blay é jornalista, jurista, mestre em Economia e doutor em Ciências Políticas. Atualmente trabalha como correspondente da Rádio BandNews FM em Paris, onde está desde 1979.

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