Eu sou mulher negra, vivo com HIV há 19 anos e sou mãe atípica. E durante muito tempo fizeram de tudo para que eu acreditasse que eu não poderia ocupar nenhum desses lugares com dignidade. Quando recebi o diagnóstico, o HIV ainda era tratado como sentença. Existia medo, desinformação, silêncio e muito julgamento. Em vez de acolhimento, muitas vezes encontrei olhares atravessados, perguntas cruéis e tentativas de reduzir toda a minha existência a um vírus. Como se eu deixasse de ser mulher, como se eu deixasse de ser humana, como se eu não pudesse amar, sonhar, construir uma família ou ser mãe.
Mas eu fui.
E ser mãe transformou completamente a minha forma de existir no mundo.
Hoje vivo uma maternidade intensa, atravessada por desafios que muitas pessoas sequer imaginam. Uma maternidade atípica, que exige força emocional, paciência, presença e coragem todos os dias. Não existe pausa para uma mãe atípica. E, muitas vezes, também não existe acolhimento. Ser mãe já é, por si só, um exercício diário de entrega. Mas ser uma mulher negra, vivendo com HIV e exercendo uma maternidade atípica significa enfrentar camadas profundas de preconceito, abandono institucional e invisibilidade social.
É entrar em espaços tendo que provar o tempo inteiro que somos capazes. Capazes de cuidar. Capazes de amar. Capazes de educar. Capazes de viver.
O mais doloroso é perceber que, depois de quase duas décadas vivendo com o HIV, o vírus nunca foi a parte mais difícil da caminhada. O preconceito foi. Porque o tratamento existe, a ciência avançou e pessoas vivendo com HIV podem ter qualidade de vida, podem constituir família, podem viver plenamente e, com tratamento adequado, não transmitem o vírus sexualmente. Mas a sociedade ainda insiste em nos enxergar através da desinformação, da culpa e do medo.
Ainda existe quem ache que viver com HIV deveria ser motivo de vergonha. Ainda existe quem tente nos silenciar. Ainda existe quem ache que mulheres vivendo com HIV não deveriam exercer a maternidade. E é justamente por isso que falar continua sendo tão importante.
Os nossos direitos existem e precisam ser respeitados. O direito ao atendimento digno, ao cuidado sem discriminação, à maternidade segura, ao acolhimento e à informação. Nenhuma mulher deveria sair de um serviço de saúde se sentindo culpada por viver com HIV. Nenhuma mãe deveria carregar o peso do preconceito enquanto tenta apenas cuidar dos seus filhos.
Ao longo desses 19 anos, aprendi que resistência não significa nunca sentir medo ou cansaço. Resistência é continuar, mesmo cansada. É sobreviver aos dias difíceis sem permitir que a dor apague quem somos. E eu continuo. Continuo amando, cuidando, lutando e ocupando espaços que disseram que não eram para mim.
Neste Dia das Mães, eu não quero ser vista pela dor, pelo estigma ou pelas estatísticas. Quero ser vista pela minha humanidade. Sou mãe, sou mulher negra, sou uma pessoa vivendo com HIV e nenhuma dessas identidades diminui a outra. Pelo contrário: elas contam a história de alguém que aprendeu a transformar sobrevivência em força.
Neste Dia das Mães, eu celebro a vida. Celebro a coragem de continuar existindo em um mundo que tantas vezes tentou me fazer desaparecer. Celebro todas as mães que vivem com HIV e seguem criando seus filhos com amor, dignidade e esperança, mesmo quando a sociedade insiste em negar acolhimento.
Porque informação quebra preconceitos. Porque o silêncio adoece. E porque existir, do nosso jeito, também é uma forma poderosa de transformar o mundo.
* Angélica Caetano Torquato é mãe, ativista e técnica de enfermagem.
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