Por Cristina Sant’Anna
Escrever o livro de Roseli como ghost writer foi diferente. Por vários motivos. Estou acostumada a redigir textos técnicos e usar a minha habilidade de redação para estruturar de forma lógica e objetiva as ideias de pessoas que desejam divulgar em livro (no papel ou virtual) o conhecimento e a experiência acumulados ao longo de sua trajetória profissional. No início do trabalho, não somos amigos; a interação obrigatória para entrevistar, pesquisar e escrever é que acaba nos levando a formar um vínculo que vai além do profissional. Além disso, como ghost writer, assino contrato com cláusula de confidencialidade e não saio dos bastidores – onde adoro estar.
Com Roseli, entrevistar e escrever esses diálogos me arranca do papel de ghost. Para começar, somos amigas há décadas. O livro não é sobre determinado assunto técnico; é uma biografia e nunca fiz nenhuma antes. É preciso ser capaz de escrever para contar uma história cheia de emoção, amor, raiva, medo, dor… De início, não sabia se conseguiria. Para continuar, Roseli quer que eu assuma créditos, apareça publicamente para falar do meu papel de ghost. Quer que eu escreva esse artigo, que fale sobre o livro, que conte como me senti ao redigi-lo e que convide as pessoas a participar do lançamento. É para isso que ela existe: para pedir o que acho difícil de fazer.
Então, desincorporo rapidamente o ghost e convido todos vocês: domingo que vem, 1º de dezembro, Dia Internacional de Combate à Aids, Roseli Tardelli lança seu livro "O Valor da Vida" – 10 anos da Agência Aids, na Livraria Cultura, do Conjunto Nacional em São Paulo.
Nesse livro, como sempre, Roseli mobilizou toda sua energia – e uma trupe de amigos – para contar como foi que reencontrou o sentido da própria vida depois da morte do irmão, Sérgio, em 1994, infectado com o HIV pelo namorado que ele considerou até o fim como o amor de sua vida.
Vitoriosa na batalha judicial pioneira, que criou jurisprudência para que todos os portadores do HIV no Brasil passassem a contar com o direito de ser atendidos pelos planos de saúde e convênios médicos – tornada lei em 1996 -, ela escolheu o ativismo: criou a Agência de Notícias da Aids em 2003 e, seis anos depois, levou o trabalho para Moçambique onde implantou a Agência Sida.
Roseli está na luta há quase 20 anos, como afirma o jornalista e escritor José Nêumanne Pinto na apresentação do livro: “Luta mesmo. Primeiro contra o HIV que infectou seu amado irmão Sérgio. Depois contra o preconceito, a indiferença e a insensibilidade de quem transformou a aids na praga de nosso tempo, na lepra de nossa geração. A Agência Aids é fruto dessa tenacidade desprendida, bonita e coerente.”
Talvez, já de antemão, você possa achar que essa é apenas mais uma história de muita tristeza e muita dor, mas a jornalista Dora Kramer, que prefaciou o livro, discorda: “Pensei que iria ler um relato de profunda amargura, de intensa e detalhada jornada de consumação de um jovem em face do inexorável, mas o que li e vocês vão ler nos próximos cinco capítulos é a saga de uma otimista. De uma insistente, de uma inventora das próprias circunstâncias, de uma realizadora de múltiplas escolhas. (…) Lá se vão mais de dez anos de batalhas, com revezes que não abalam o ânimo e produzem avanços.”
O que move Roseli, o que dá valor e sentido ao seu ativismo, é a busca por uma resposta. Já muito doente, quando a família obteve a liminar para o plano de saúde arcar com o tratamento do irmão, ela foi levar à notícia e ouviu Sérgio dizer com um sorriso triste: “Legal… e os outros?”
E tentar lutar contra os preconceitos virou sua profissão de vida.
Lançamento
"O Valor da Vida" – 10 anos da Agência Aids
Autora: Roseli Tardelli
Editora: Editora Senac São Paulo
Preço: R$ 25,00
Número de páginas: 171
Data: 1º dezembro 2013 (domingo) – Dia Internacional de Combate à Aids
Horário: das 15 às 19 horas
Local: Livraria Cultura Conjunto Nacional – Av. Paulista, 2073
Cristina Sant’Anna é jornalista, ghost writer e tradutora desde 1995.
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