JOVENS E PREVENÇÃO – Brenda Fucuta – Diretora de Redação da Revista CAPRICHO

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Brenda Fucuta, diretora de redação da revista CAPRICHO

Ei, é a hora. Ele está perto de mim e parece que vai rolar. Ai, ai, ai, será que eu devo deixar? Será que vou me arrepender? E se ele não ligar amanhã? E se notar minha barriga? E se ELE tiver barriga? Se eu não gostar, será que ele pára?
Você já foi adolescente e espero que, para o seu bem, já tenha pensado nisso tudo durante aquele momento que está prestes a se transformar na sua primeira vez. S-E-X-O, uma nova categoria na sua vida. Todas aquelas preocupações e uma revista martelando na sua cabeça: use camisinha, use camisinha… Como se você não tivesse problema suficiente para resolver naquela hora, ainda vai precisar pedir para o cara colocar o preservativo.

Há dez anos a revista onde eu trabalho, CAPRICHO, defende o uso da camisinha na iniciação sexual de suas leitoras. É uma bandeira muita digna de carregar e que enche de orgulho as várias equipes que vem passando pela redação desde que a campanha “Camisinha tem que usar” foi criada, em 1993. Arrisco dizer, embora não haja uma comprovação científica, que também é uma bandeira bem-sucedida. Em 1993, 36% das leitoras da revista que já tinham transado diziam que usavam camisinha sempre. Em 2003, foram 66% das leitoras não-virgens.

Se formos otimistas e acreditarmos que as meninas da revista estão dizendo a verdade e que os jovens entrevistados num estudo recente do Ibope também não faltaram com a palavra (65% deles iniciaram a vida sexual com preservativo), temos muito a comemorar. Em termos de sexo seguro, os jovens brasileiros estão à frente dos canadenses, alemães, italianos e americanos.
Óbvio que ainda sobra muito adolescente transando sem proteção. Não vamos esquecer que está crescendo o número de meninas contaminadas pelo HIV e pelo HPV e que, a cada ano, no Brasil, mais de 1 milhão de meninas se tornam mães precoces.

Mas se a gente considerar tudo o que foi dito no começo deste artigo, é quase espantoso que um garoto e uma garota, nas suas primeiras vezes, ainda se lembrem de acionar a proteção. Eu acredito firmemente que, se eles estão se lembrando, e cada vez mais, de usar camisinha, é porque, de alguma maneira, o sexo está ficando menos complicados nas suas cabeças.

Bom, não é? Ficou menos complicado porque circulou muita informação sobre o assunto. E é aí que entra o maior problema de quem se comunica com os jovens: os pais dos jovens. Eles não gostam de sexo (brincadeira, eu quis apenas dizer que eles não gostem que a gente fale de sexo para seus filhos). Acham que falar é estimular a fazer. Imagine então se os jornalistas deixassem de falar de crimes, de corrupção e de doenças: o mundo estaria livre de tudo isso, certo?

Meu maior desafio, à frente da redação da revista, tem sido convencer os pais que dar informação de qualidade sobre sexo pode, na verdade, atrasar o início da vida sexual de seus filhos. Pesquisas em escolas que adotaram a educação sexual nos seus currículos mostram que, naquelas comunidades, a primeira vez passou a acontecer mais tarde. Às vezes dá preguiça de martelar a tecla do “saber é poder”. Mas, como diz aquela propaganda de uísque, keep walking… O jeito é continuar na batalha. Um dia, os pais descobrirão que sexo é bom e sexo seguro é melhor ainda.



Brenda Fucuta, diretora de redação da revista CAPRICHO. E-mail: BFucuta@abril.com.br

Apoios