Alessandra Nilo
Há exatamente um ano, enquanto todo o mundo se articulava para comemorar o 8 de março, dia Internacional da Mulher, a GESTOS liderava uma mobilização local e internacional, que incluía desde protestos na frente do Consulado Americano do Recife, até contatos diretos com a secretária Condoleeza Rice para que fosse dado o direito a Janaína Regina da Conceição, 27 anos, soropositiva, a entrar nos Estados Unidos.
Janaína, cidadã brasileira, pernambucana, havia sido convidada a dar seu depoimento na 51o Encontro da Comissão de Status da Mulher, sediado pelas Nações Unidas, cujo tema era, exatamente, a relação entre violência contra as mulheres e a AIDS. O que para Janaína seria uma oportunidade única de falar para líderes mundiais sobre um problema que impacta a vida da maioria das mulheres no planeta, se transformou em mais uma situação de violência vivida por ela.
Apesar do motivo oficial para recusa do visto tenha sido ausência de emprego fixo, ao considerarmos que ela havia recebido um convite formal das Nações Unidas, estava patrocinada pela Action AIDS –uma organização global– e tinha todas as comprovações atestadas por uma instituição reconhecida localmente como a GESTOS de que não iria migrar, fica impossível deixar de questionar-se, de fato, se sua baixa condição econômica era o real motivo do indeferimento.
Janaína, assim, tornou-se um nome a mais entre tantas pessoas que tiveram seus direitos violados ao tentar entrar nos EUA, e mais outros países, apenas porque assumem publicamente sua condição de soropositividade. Em 12 países – com destaque para Estados Unidos, China e países árabes – se impede a entrada de turistas soropositivos. Em 72 países – incluindo o Canadá – não emitem o visto permanente para portadores do HIV.
Ao ser criado recentemente um grupo na Organização Mundial de Saúde (OMS) para discutir o problema, deu-se um importante passo, na medida em que se pode tratar ali, de maneira formal a existência da questão. Mas esse caminho terá muitos percalços, como se espera. Países fundamentalistas, apoiados pelos EUA, tem cada vez menos se importado com os Direitos Humanos e, em se tratando de AIDS ao invés de investir nos métodos com melhores resultados – como o uso do preservativo, que é 100% seguro quando corretamente utilizado – optam pela promoção de estratégias controversas como abstinência e fidelidade. Outros, contraditoriamente, mesmo com um discurso público de que promove culturas livres de estigma e discriminação contra as pessoas com AIDS, ainda assim bloqueiam seu direito de entrar, sem constrangimento em seus países. Ou seja, não vai ser uma discussão simples.
O tamanho do debate vai depender não apenas da articulação das forças políticas que mobilizam o processo, mas também da publicidade que podem alcançar – e isso vale para os dois lados da arena. Por isso, como uma forma simbólica de denunciar o problema, acredito que o maior foco deve ser colocado nos Estados Unidos que, ao sustentar financeiramente a ONU, transformou o direito de sediá-la no de impedir que esta seja freqüentada pelas pessoas a quem deveria, teoricamente, servir e defender de maus-tratos. Maus-tratos como estes impostos pelo Estado Americano que, ironicamente, nos outros países promove guerras em nome de algo que chama “liberdade”.
Neste 8 de março, vale lembrar uma mulher como Janaína e sua vontade de falar nas Nações Unidas, que faz eco ao desejo de muitas outras mulheres soropositivas no mundo: o de exercer o direito de ir, de vir e de expressar-se livremente.
Alessandra Nilo é jornalista e Coordenadora da GESTOS – Soropositividade, Comunicação e Gênero.
www.gestos.org
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