Já que não há mais Fogueiras… Cláudio C. Monteiro Jr é bacharel em Ciências Sociais

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Por Cláudio C. Monteiro Jr.

Aos longos destes quase 30 anos, a pandemia de HIV/Aids vem determinando a reorientação das relações entre o Estado (no sentido sóciopolítico do termo) e o vasto campo comumente denominado Sociedade Civil, em sua mais variada gama de organizações. Verdades absolutas e inquestionáveis passaram a ser desnudadas em sua falaciosidade frente aos números incontestes da epidemia entre nós, que se fazem ainda mais apavorantes quanto mais se instala no único meio legitimo de exercício da sexualidade permitido por nossa moral vigente, e sacramentado por nossa tradição judaicocristã : o casamento monogâmico com intenção procriativa.

Neste sentido, a Aids explicitou o abismo existente entre esta moral socioegemônica apresentada como virtuosa pelas instituições religiosas e a sexualidade vivida e vivenciada pelos membros destas (e não faremos distinção entre clérigos e leigos), o que equivale a dizer que nem sempre os fiéis seguem o que os dirigentes pregam. Porém, valores morais não podem ser transformados em políticas sociais. Verdades grupais não podem ser ampliadas em verdades sociais, sob pena de enveredarmos no mais profundo obscurantismo, ainda que este seja o sonho de muitos.
Nunca 15 centímetros de borracha consumiram tanta tinta e papel (ou memória dos computadores, se preferirem) do que o assunto Igreja Católica, Papa, Camisinha, AIDS e suas derivações, quando a lógica é puramente equacional : 1) A Igreja reconhece, desde o Concílio Vaticano II, a supremacia da ciência, a qual não se podem impor os dogmas (exemplo : criacionismo X evolutivismo); 2) A Igreja se opõe ao métodos contraceptivos artificiais; 3) A ciência preconiza como um dos insumos de prevenção à AIDS um método contraceptivo artificial. De quem é o problema? Da Igreja, naturalmente, e não da Ciência.

Obviamente a realidade vivenciada por pastores e padres que por opção dedicam-se aos pobres e não à estéreis debates teológicos em muito difere da dos doutos teólogos moralistas que crêem ser factível a expansão numérica da Igreja e a preservação de posturas radicais.
Por ocasião do “Ciclo de Debates A Igreja e a Camisinha”, dentre os incontáveis sacerdotes que convidamos, Pe. Valeriano foi um dos únicos cinco a atender prontamente o convite, afinal “muitos serão chamados e …(Mt.20:16)”. Conforme constam nos registros deste evento “A tônica vivencial pautou as colocações de Valeriano Paitoni, numa perspectiva missionária, cujas proposições se originam na experiência acumulada no trabalho cotidiano com crianças soropositivo” .
Crianças que estão se tornando adultos, cidadãos atuantes e responsáveis. Adultos que trabalham, estudam, amam, se casam e colocam mais esta necessidade de que as posturas da Igreja frente ao preservativo, seja, minimamente revista.
Como missionário que tem com missão única o enfrentamento ao HIV em toda a sua extensão, Pe. Valeriano sabe da perniciosidade de determinadas colocações do alto clero, frente ao trabalho pedra a pedra, dia a dia.
E Pe Valeriano ousou falar. Falar em nome daqueles que não tem voz. E sua voz incomoda, como sempre incomodaram aos ouvidos farisaicos a voz dos profetas. E falou a verdade: a camisinha é realmente eficaz na luta contra a AIDS. E deve ser usada para este fim. No que errou Pe. Valeriano ?
Em nota oficial levada ao ar no em seu site, a Arquidiocese de São Paulo, em tom lacônico e espartano, assinada pelo Vigário Episcopal Dom Tomé Ferreira da Silva, tenta justificar o injustificável: sua (e do Instituto Missionários da Consolata) irascíbilidade em rever posições anteriores, como fazem os verdadeiros magnânimos.
Por menos que conheçamos da Regra dos Missionários da Consolata, a qual Pe. Valeriano pertence, nos parece que acima de qualquer regra deva prevalecer o bom senso. A retirada do gestor da obra social que tem Pe. Valeriano à frente, sem dúvida, comprometerá de imediato a qualidade da assistência ali prestada. O que há de pesar? “A lei foi feita para o homem, ou…(Mc 2:27)”.

Sistematicamente, setores do clero propõem e executam medidas de represália a Pe Valeriano por este defender publicamente a eficácia provada do preservativo masculino no enfrentamento da pandemia de AIDS e na prevenção de outras Doenças Sexualmente Tranmissíveis. Muitas vezes, estas ameaças tomam os rumos tortuosos daquele definidos como “víboras” em (Mateus, 12:34). Várias foram as ameaças feitas anteriormente. E neste cenário a ameaça de se desinstalar as crianças dos abrigos (perfeitamente adequados às boas normas de saúde, há de se dizer), por terem sido construídos em “área paroquial”, administrada, portanto, pela Arquidiocese de São Paulo, usando-se tais crianças, como reféns de uma pretensa desobediência eclesiástica, me parece apenas um pouco mais misericordioso do que atitudes que talvez Herodes tomasse.

As Organizações Governamentais, Não Governamentais e Religiosas de diversas matrizes já se manifestaram publicamente. Nada parece abalar tais “sepulcros caiados de branco (Mt.23:25).

Em última instância apelar-se ao voto de obediência. Porém, obediência não é subserviência. E, certamente, não existem mais fogueiras para soluções ao estilo Giordano Bruno.

E já que não há mais fogueiras, pretende-se calar as vozes, mas “se não falarmos, as pedras falarão (Lc 19:40)”.

Cláudio C. Monteiro Jr é bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e mestre em Infectologia em Saúde Pública pelo Instituto de Infectologia em Emílio Ribas. Atua desde 1985 no enfrentamento ao HIV, em organizações governamentais e não governamentais, sendo membro da Pastoral da AIDS, CNBB



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