INSUMOS PARA USUÁRIOS DE DROGAS: EM RESPEITO À DIVERSIDADE
– Paulo Giacomini é editor do jornal Aids & Ativismo

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Paulo Giacomini

A Redução de Danos (RD) chegou ao Brasil enquanto estratégia de saúde para responder ao expressivo número de casos de Aids entre Usuários de Drogas Injetáveis (UDI). Desde 1989 luta-se para que conquiste espaço nas políticas públicas, principalmente com o financiamento de ações estratégicas, como a troca de agulhas e seringas descartáveis e a distribuição de preservativos. Ainda que no cômputo geral essa população represente 19% dos casos de Aids no país, as ações resultaram na diminuição de 28,9% nas novas notificações em 1992, quando atingiram seu pico, para 10,7% em 2003.

As estratégias de RD já não objetivam tão somente a prevenção das DST e do HIV entre UDI. A partir de 2002, com a implementação de ações de RD para usuários de crack em Florianópolis, Juiz de Fora, Ponta Grossa, Salvador e São Paulo, com a distribuição de insumos – cachimbos, protetores labiais e camisinhas –, pôde-se repensar o conceito de vulnerabilidade do usuário de droga em geral, “uma vez que está comprovado que muitos usuários têm dificuldade de usar preservativo quando em intoxicação aguda por algumas drogas, como cocaína, álcool e crack”, segundo Andrea Domanico, pesquisadora em crack e doutoranda em Ciências Sociais pela UFBA (Universidade Federal da Bahia).

“Desde sempre a humanidade cuidou dos seus enfermos buscando a melhor forma de administrar as drogas para aliviar suas dores. A RD assume essa postura não preconceituosa, pois sabemos que os preconceitos geralmente são conceitos errados e cheios de conotações morais”, afirma a pesquisadora, defendendo a inclusão de novos insumos, como o protetor labial para usuários de crack. “Os usuários fumam em latas, ferem a boca, importante porta de entrada para a maioria das infecções. Assim, o protetor é um insumo fundamental de proteção.”

Mas, o hiato entre população-alvo (UDI) e população realmente vulnerável, ou seja, os usuários de drogas, tem provocado descompassos entre o objetivo das intervenções e os sujeitos das estratégias. Atualmente, além do enfrentamento da epidemia da Aids entre UDI, é necessário levar em consideração as vulnerabilidades de milhares de cidadãos quando reutilizam seringas na injeção de anabolizantes e silicones, quando trocam sexo por algumas pequenas pedras de crack, ou quando ingerem bebidas alcoólicas nos balcões dos bares das grandes cidades e, em seguida, aspiram algumas carreiras de cocaína nos banheiros para depois fazer sexo desprotegido.

Em países como a França, por exemplo, usuários de drogas aspiradas recebem o “kit sniff” como insumo de RD para o uso seguro de heroína e cocaína. Além da camisinha, a embalagem deste kit contém cotonetes com vitamina E, gel lubrificante, canudos, uma lâmina de metal, guardanapos, recipiente e cartão. Lá, usuários de crack recebem, além de sachês de protetor labial e preservativos, cachimbos de vidro.

“Os cachimbos de vidro podem ser aquecidos nos finais das sessões de uso para a retirada da droga acumulada usada pelos usuários, evitando serem raspados”, ensina a professora. “Não dispersam alumínio, cobre, madeira, plástico ou quaisquer resíduos que possam causar danos à saúde dos usuários que consomem até a borra do crack.”
Aqui, apesar das evidências, e não apenas pela transmissão do HIV, mas das hepatites, da tuberculose e outras infecções, usuários de drogas parecem menos vulneráveis que UDI.
Como se não bastasse esse cenário, portadores do HIV em tratamento com anti-retrovirais insistem em não encarar estratégias de RD para minimizar os efeitos colaterais provocados por seus medicamentos. Como se anti-retrovirais não fossem drogas e também não causassem danos.

Paulo Giacomini, editor do jornal AIDS & ATIVISMO, do Fórum das ONG/AIDS do Estado de São Paulo

Apoios