IMPEDIMENTO DA TRANSMISSÃO VERTICAL: SONHO AINDA LONGE DE SER ALCANÇADO – José Araújo Lima Filho é presidente da Associação François-Xavier Bagnoud (A

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José Araújo Lima Filho

Estamos às vésperas de novas eleições e novamente presenciamos no rádio e na televisão a imagem da saúde pública em nosso estado e município solucionada como num passe de mágica. A transmissão vertical para o HIV/AIDS, é hoje, no campo da ciência, possível de eliminar ou ao menos se aproximar do objetivo. Para o Brasil, onde os medicamentos anti-Aids encontram-se disponíveis na rede pública, essa questão seria apenas de vontade política, ou melhor, questão de uma política pública séria, tendo a mulher inserida como um todo nessa política.

Na cidade que nos últimos 6 anos teve sua transmissão vertical próxima aos 2%, pode com a atual política de saúde implantada da cidade de São Paulo, ter um retrocesso que com certeza colocará em destaque mundial a verdadeira situação da política de saúde do país. Na cidade administrada pelo prefeito José Serra que assume, mesmo que não seja a verdade, a criação do “melhor” programa de Aids do mundo, uma gestante tem vivenciado uma verdadeira via crucis para ter seu terceiro filho livre do HIV, haja vista que o mais novo, com 3 anos, não foi possível prevenir.

Encaminhada ao Hospital de Campo Limpo, que a poucos meses foi motivo de um factóide para colocar o prefeito na mídia, a gestante foi informada que por conta das reformas no hospital, a mesma não iria fazer a laqueadura desejada e possivelmente teria um parto natural, não recomendado para este caso. Com o filho de 3 anos em sessão de quimioterapia a gestante aceitou a situação com uma mistura de conformismo e indignação, se é possível vivenciar esses dois sentimentos simultaneamente.

Com a intervenção da Associação François Xavier Bagnoud, a responsável pela Área Temática da cidade de São Paulo, agilizou um outro hospital municipal para o parto como o recomendado. O fracasso no atendimento do Serviço Municipal novamente mostrou sua cara, pois pela segunda vez a gestante deixou o filho no hospital na tentativa de marcar sua laqueadura e cesariana.

Chegando ao hospital, só foi possível o agendamento depois de uma “guerra” de telefonemas, com uma mulher humilhada e desesperada, ao imaginar um segundo filho infectado. Se a política pública de saúde no Brasil é falha, na cidade de São Paulo, a situação torna-se ainda mais grave quando, presenciamos na televisão e mídia em geral uma maquiagem nos serviços de saúde, jamais vista antes.

A Secretária de Saúde encontra-se hoje alojada em uma sala de vidro resistente a reivindicações, onde seus assessores têm que responder ao que não é possível responder. Para compreender melhor a gravidade da saúde na cidade de São Paulo, em especial na periferia, cabe lutarmos para que a Secretária de Saúde tenha um minuto de sensibilidade e disposição para conhecer a atual situação da Unidade Básica de Saúde e Serviço Especializado de DST/AIDS do Jardim Mitsutani, sem banheiros para os usuários, com filas imensas, lixos acumulados, falta de profissionais e, já que se localiza na zona sul, dar uma caminhada até o Hospital Campo Limpo, sem a maquiagem para fotos em dia de festa.

Ao prefeito José Serra caberia a responsabilidade de governar de fato e cobrar de sua Secretaria a real situação da saúde na cidade, que com certeza não será um colírio, mas sim um sucateamento total do nada que existia. Não será uma Área Temática em DST/AIDS, comprometida com a diminuição da transmissão vertical, que vencerá a falta de sensibilidade de governantes que não possuem uma política de saúde eficiente para uma cidade como São Paulo.

Uma mulher, com seu filho gravemente enfermo e que, mesmo assim luta para oferecer à filha prestes a nascer, o direito de ser negativa, mas não consegue ser atendida dignamente, é o retrato da cidade administrada pelo “criador” do melhor programa de aids do mundo. Quantos aos governantes, bem, o Governador sonha em ser Presidente da República, o prefeito sonha em ser governador e ao povo cabe sonhar com as promessas de que um dia ele será priorizado.

José Araújo Lima Filho é presidente da Associação François-Xavier Bagnoud (AFXB) do Brasil. Tel.: (0XX11)5842-5403

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