O envelhecimento da comunidade LGBTQIAPN+ foi o tema da 29ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, que destacou a necessidade de a sociedade acolher e garantir os direitos desses idosos, como lares inclusivos e serviços públicos adequados, incluindo os de saúde.
Entre as principais doenças que acometem a população com 60 anos ou mais no Brasil e no mundo está o câncer. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), seis em cada dez brasileiros com a enfermidade estão nesta faixa etária.
Com a redução da mortalidade por aids devido à terapia antirretroviral, as pessoas infectadas pelo HIV estão envelhecendo. Só no Brasil, estima-se que 50% dos indivíduos com o vírus tenham 50 anos ou mais. Como resultado, o câncer se tornou uma das principais causas de morte associada ao HIV.
A possibilidade de o HIV aumentar o risco da doença em idosos ainda é um assunto controverso. É fato que o vírus confere um risco aumentado para muitos tipos de câncer, embora não seja responsável direto pelo desenvolvimento da doença.
Por provocar uma inflamação crônica no organismo e danos ao sistema imunológico, o microrganismo cria um ambiente propício para o surgimento de tumores. A terapia antirretroviral também aumenta o risco do câncer, por gerar um processo inflamatório e causar várias alterações metabólicas, doenças cardiovasculares e resistência à insulina.
Os pacientes vivendo com HIV são mais propensos a coinfecções com o vírus do Papiloma Humano (HPV), o herpes vírus do sarcoma de Kaposi, os vírus de hepatite B e C e o vírus Epstein-Barr (EBV). Estudos mostram ainda que esse segmento tem um estilo de vida de maior risco para o câncer como o tabagismo e o consumo excessivo de bebidas alcoólicas.
O Centro de Controle e Prevenção de Doença (CDC), nos Estados Unidos, definiu em 1993 dois tipos de câncer associados ao vírus: os definidores para HIV e os não definidores para a infecção. No primeiro grupo estão o sarcoma de Kaposi, o linfoma não Hodgkin e o câncer de colo uterino.
No segundo, estão os cânceres que se desenvolvem com maior facilidade pela associação com outros fatores de risco. O câncer do canal anal, por exemplo, é cem vezes mais comum em pessoas vivendo com HIV do que naqueles sem essa condição. Assim como os tumores na região orofaríngea, ele pode ser causado pelo HPV. O câncer no fígado é potencialmente provocado pelas hepatites B e C; o linfoma de Hodgkin, pelo EBV, e o câncer de pulmão, pelo tabagismo.
Para evitar o câncer, os especialistas recomendam às pessoas infectadas pelo HIV a vacinação contra o HPV e a hepatite B e a prática de sexo seguro. Além disso, devem adotar ações preventivas indicadas para a população em geral, como não fumar, evitar o consumo excessivo de álcool, ter uma dieta equilibrada, controlar o peso e praticar exercício físico.
Não há um rastreamento especial para as pessoas com HIV, exceto o exame de câncer do colo do útero, que deve ser realizado, inclusive em homens trans, logo após o início da atividade sexual, com periodicidade anual após dois exames normais consecutivos realizados com intervalo semestral.
O aumento da longevidade da comunidade LGBTQIAPN+ segue uma tendência registrada em todo o Brasil — um país que está envelhecendo em ritmo acelerado. Hoje, o país conta com 15,8 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Até 2030, esse número deve ultrapassar os 40 milhões.
Esse cenário apresenta alguns desafios, entre eles a identificação da presença do HIV em idosos, cuja vida sexual ativa se prolongou com os medicamentos para a disfunção eréctil. De um lado, os sintomas provocados pelo vírus podem ser confundidos com outras enfermidades típicas da terceira idade. De outro, os profissionais de saúde geralmente não consideram essa população de alto risco para o HIV.
O fato é que os médicos precisam ficar mais atentos. É importante lembrar que, quando um paciente apresenta um câncer definidor do HIV, a prescrição de exames para identificar a presença do vírus no organismo é quase automática.
Com o envelhecimento da população e a atividade sexual na terceira idade, os médicos devem solicitar esses exames aos idosos, mesmo quando diante de queixas como febre e perda de peso, comuns nesta faixa etária.
* Dra. Rafaela Pozzobon, oncologista da Oncologia D’Or.
Referências
1. Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Disponível em https://sbgg.org.br/6-em-cada-10-brasileiros-com-cancer-sao-idosos/
2. Sandra Wagner Cardoso et al. Aging with HIV: a practical review. Review Articles . Braz J Infect Dis 17 (4). 2013.
3. EP Simard, EA Engels: Cancer as a cause of death among people with AIDS in the United States. Clin Infect Dis 51: 957– 962,2010
4. Satish Gopal et al. Moving Forward in HIV-Associated Cancer. Journal of Clinical Oncology. Volume 32, Number 9, 2014
5. 1993 revised classification system for HIV infection and expanded surveillance case definition for AIDS among adolescents and adults MMWR Recomm Rep 41: 1– 19,1992.
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