Laerte Vicente
Eu comecei a freqüentar o GIV (Grupo de Incentivo à Vida) há cinco anos. Era uma época um pouco difícil para mim. Fazia uns dois anos que eu vivia com o HIV. Eu estava psicologicamente abalado, quase em depressão. Tudo aquilo para mim era novo, aquele vírus, uma doença estranha que, até então, me assustava. Fiquei sabendo daquele grupo aonde iam pessoas que tinham o mesmo problema que eu. Eu queria saber como elas viviam, se eu poderia viver uma vida normal, se eu poderia voltar a trabalhar e até namorar. Para mim, tudo isso parecia impossível.
Fui a uma festa dos aniversariantes do mês e vi todas aquelas pessoas, soropositivas como eu, pulando, brincando, dançando. Aquela alegria toda me contagiou e me encheu de ânimo e comecei a ir às reuniões das quartas feiras, as reuniões de novos. Eu conheci o Hugo e o Tácito Molina, que na época eram coordenadores do grupo de novos. Por meio deste grupo, comecei um outro, o GVT (Grupo de Vivência Terapêutica), só dirigido para pessoas que vivem com HIV/Aids.
Depois de um bom tempo, eu já fazia parte do GIV. Nesta época existiam só dois grupos: o “Somos”, voltado aos homens que fazem sexo com homens e o “Toque de mulher”, voltado às mulheres soropositivas. Não havia um grupo para homens heterossexuais. Os poucos homens heterossexuais que havia na casa, participavam das reuniões de segunda-feira, o GVT. Então, eu passei a trabalhar junto com outros colegas para organizar um grupo homens heterossexuais. Após as eleições que elegeram uma nova diretoria no GIV, eu participei de uma reunião com a diretoria da casa, onde recebi carta branca para organizar o grupo de homens heterossexuais, o “Heteromanos”.
O grupo surgiu em um momento em que os homens heterossexuais vivendo com HIV precisavam de um espaço específico para discutir seus problemas. Passamos a divulgar o grupo nas reuniões do GIV e nos hospitais onde nós fazíamos tratamento. Antônio, eu e mais duas pessoas começamos a nos reunir e convidar outras pessoas a participarem. Na primeira reunião, nós criamos nosso estatuto e nossas regras. “Heteromanos” tornou-se o grupo onde os homens heterossexuais podiam e podem discutir seus problemas de vivência com o vírus do HIV, as suas dores, seus medos, as dificuldades encontradas para viver melhor da melhor maneira possível.
Era necessário discutir as dificuldades de relacionamento conjugal e afetivo, dificuldades nas paqueras, no trabalho. Muitas pessoas têm dificuldade de levar seus coquetéis para tomar no trabalho devido à curiosidade das pessoas, dos colegas, e através das reuniões, da troca de vivência e experiências, os homens do grupo sempre encontraram alguma maneira de driblar a curiosidade humana para poderem tomar seus medicamentos em paz. Muitos problemas também são debatidos em relação ao preconceito. A questão de contar para os amigos e para as pretendentes ou até mesmo as namoradas sobre a sorologia, o medo de perder um amigo , o medo de perder a namorada e alguns que perderam até a mulher com quem eram casados em função do HIV.
No entanto, nem todo mundo que freqüentava o grupo adquiriu o HIV em função do sexo, ou daquela irresistível “puladinha de cerca”. Há também pessoas que são hemofílicas infectadas pela transfusão de sangue, dependentes químicos que se infectaram com seringas injetando drogas e até pessoas que sofreram algum tipo de acidente de trânsito que receberem sangue contaminado.
O trabalho do grupo “Heteromanos” é para, de alguma forma, as pessoas aprenderem a romper com seu auto-preconceito e a superar o preconceito das outras pessoas, a viver de bem com a vida , aderir à vida. Nossa luta é que as pessoas podem continuar vivendo normalmente. Apesar do HIV, podemos continuar trabalhando, namorando, mesmo muitas vezes com os efeitos colaterais de alguns medicamentos atrapalhando um pouco nossas vidas. Mas com ajuda dos nossos médicos infectologistas, nós podemos tornar nossas vidas menos doloridas.
E eu estou contente em ver os resultados atingidos em um ano após a existência dos “Heteromanos”. Eu vejo algumas pessoas que chegaram ao grupo assustados e hoje já vivem bem. Alguns voltaram a trabalhar, outros a estudar e alguns voltaram até a namorar, encontraram uma parceria e começaram a viver juntos. Eu fico feliz com os resultados positivos do grupo e gostaria que esse trabalho fosse espalhado para outras ONG. E estou disposto a isso, a organizar grupos onde for necessário. Sou grato ao GIV por ter permitido que eu organizasse o grupo em sua sede. Acabamos nos tornando a grande família GIV. E agora, pelo menos uma vez por mês, os “Heteromanos” se reúnem com o grupo “Toque de Mulher” para fazer a integração entre homens e mulheres.
HETEROMANOS
É a força da vida
O caminho da luz
Centro de recuperação
Do ser homem
Contra o preconceito
Contra o auto preconceito.
Heteromanos
É a união do ser homem
Pelo resgate da vida
O renascimento
Em busca da auto estima do ativismo incansável
Pelos nossos direitos
Heteromanos
É vida .
Laerte Vicente é poeta de rua, andarilho cultural e coordenador do grupo Heteromanos.
E-mail: laertevicentes@bol.com.br
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