GRAVIDEZ E AIDS – A HISTÓRIA DE ANA PAULA PRADO – Ana Paula Prado, Articulação com a Sociedade Civil e Direitos Humanos – SCDH – Programa Nacional de

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Ana Paula Prado

Em 1997, engravidei e busquei o serviço de saúde onde estava fazendo meu pré-natal para realizar o teste anti-HIV, e para minha surpresa aos 6 meses de gravidez descobri meu resultado sorológico. Foi de fato um grande impacto descobrir meu status sorológico, uma vez que eu erroneamente imaginava que uma pessoa comum, sem grandes situações de risco, pudesse estar tão vulneravel à infecção pelo HIV.

No meu processo de elaboração, minhas emoções alternavam entre o medo e a vergonha, e assim foi até o momento de entrar em trabalho de parto. Por infelicidade minha, passei 5 dias com contração e buscando Hospitais públicos aqui de Brasília. No entanto, não fui bem atendida e sempre os médicos vinham com a mesma história; que ainda não estava na hora do parto e o melhor a fazer era retornar para casa. Como era marinheira de primeira viagem acreditei que era o melhor a fazer. Passei nesses 5 dias por 06 médicos diferentes que sempre diziam a mesma coisa. As minhas contrações só aumentavam, e não havia qualquer remédio que ajudasse. Mas aguardei…. Infelizmente quando consegui falar com um médico conhecido de minha família já era tarde. MEU FILHO JÁ HAVIA MORRIDO EM MINHA BARRIGA.

Foi difícil elaborar tudo isso de uma só vez. O diagnóstico e a perda de meu filho fizeram com que eu dessenvolvesse uma grande depressão e pensasse inclusive em morrer para por fim a tanto sofrimento. Entretanto, em pouco tempo tive que retornar para meu trabalho, pois era à epoca Assistente Social de um órgão público aqui em Brasília.

Retomando aos poucos minha vida, apesar do imenso vazio, pude elaborar minha nova condição, é claro que com o apoio de minha psicológa. Foi dificil perceber que precisava de ajuda para superar essa situação, mas reconheci que não daria conta sozinha. Pude refletir sobre minha vida e buscar outras soluções. Na época estava vivendo com meu companheiro e decidi que precisaria ficar só. Me separei e busquei mais qualidade de vida. Timidamente me aproximei do Grupo Arco-Íris, e aqui pude encontrar forças para entender melhor a Aids e suas implicações. A partir de então comecei meus trabalhos com HIV/Aids e quando vi, já era ativista. Me qualifiquei e me inseri no movimento nacional de pessoas vivendo com HIV/Aids e no movimento nacional de luta contra a Aids. Também vieram o Cidadã Posithiva e várias outras ações.

Atualmente, elaborada a minha perda e dor, reconheço que depende de cada um de nós a construção de um mundo melhor. Percebi que é realmente possível viver bem com o HIV e desconstruir os mitos e preconceitos da população. Hoje tenho trabalhado mais de 12 horas por dia, mas me programando para quem sabe daqui a uns 2 anos engravidar de novo. Não tenho filhos ainda e estou com 34 anos. Hoje gozo de uma ótima saúde e sou muito namoradeira. Por vezes ainda fico mal pelo fato das pessoas demonstrarem preconceito, mas ao longo desses quase 7 anos tenho ficado cada vez mais fortalecida.

Sou muito feliz e capaz. Acredito que não devo isso ao HIV, mas sem sombra de dúvidas, descobrir minha sorologia me tornou forte e capaz de lutar pela minha vida e meus ideais.

Ana Paula Prado, Articulação com a Sociedade Civil e Direitos Humanos – SCDH – Programa Nacional de DST/Aids – Tel.: 0xx61 3448-8122/34488124

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