Gente com aids – Primavera de 2017

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por Nair Brito*

28/10/2017 – Sabe, hoje eu sei o que é viver. Tenho aids.

Os amigos e amigas que conheci e que partilham dessa mesma história de 26 anos de diagnóstico me ensinam coisas sobre a vida e fazem valer cada passo dela.

Amor simples, complexo, amizade de laço firme, olhares que se encontram e se reconhecem mesmo depois de longos anos longe, ideias novas e velhas juntas rememoram o passado, inquietam ou acalmam o presente e iluminam caminhos para o futuro.

Reunidos acompanhamos o rumo da nossa história sem ficar de fora. Com lápis e papel na mão, ou para os mais adiantados os ligeiros dedos no teclado anotam e publicam o que não está bom e indicam o que melhor seria.

Um quarto e mais um tanto do século 20 conheceu e foi sacudido por essa gente que nem esperança de viver tinha, mas a criou. Pensa sociedade, arte, ciência, saúde, educação, política de um jeito que caiba gente brasileira, isto é, diversa em gênero, etnia, cor e orientação sexual. Avançou, inaugurou novos rumos. A vida ficou possível.

Tecemos redes e movimentos. Cada um emprestando seu fio. E assim, a grande trama da solidariedade, da equidade e da inclusão formam o desenho da comunhão esperada pelos povos. Quiçá algumas folhas da árvore da vida dessa gente servirão para a cura dos povos.

Tirar a palavra aids do vocabulário dessa história interfere na tela produzida por tantas mãos. Aliás, na própria história. Somos mais do que um vírus ou sua consequência, é fato; agora, fazer calar as marcas no corpo e na alma produzidas pela aids é sucumbir ao invisível a que sempre tentaram nos colocar.

Somos vidas exalando vida. Tum, tum, tum… ecoando em toda terra o som do chamado para a peregrinação de cada dia. Muitas silenciam. Daí, fica a doce lembrança do encontro.

Homens, mulheres, velhos e novos com aids: fazem história, mudam história, vivem, adoecem, renascem, morrem, nascem. Eita gente viva!

* Nair Brito, é professora e militante do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas.

** Este documento foi escrito para o 7º Encontro da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids.

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