14/01/2005
José Araújo Lima, presidente da AFXB-Brasil e ativista da Aids
Como ativista de luta contra Aids, sempre estive atento a todo movimento de luta no Brasil e no mundo.
Alguns fatos nesta área sempre me incomodaram e um deles é quando fundações, associações e grupos adotam o nome de alguém que, supostamente, seja um “grande” benfeitor. A minha visão preconceituosa (muitos de nós ativistas temos conceitos errôneos enraizados) é sempre resistir ou no mínimo usar indiferença por tais atitudes.
Acredito que isto aconteça, na maioria dos casos, em razão de nossos políticos terem mais tempo para criar nomes de ruas imortalizando seus cabos eleitorais do que para amenizar as injustiças que se perpetuam em nossa sociedade. No campo social a história é um pouco diferente, mas em muitos momentos essas homenagens também são um fato frustrante ofuscando, em muitos momentos, a verdadeira razão da luta.
No movimento de combate contra a Aids a minha resistência sempre foi maior. Muitos amigos morreram e, mesmo com um trabalho que fez a diferença, eles são em sua grande maioria relegados a um plano comum.
Minha visão preconcebida começou a mudar quando conheci a verdadeira história do grupo Viva Rachid em Recife. Uma mãe, que perdeu seu filho ainda criança com Aids, resolveu lutar para que todas as crianças com HIV/AIDS tivessem uma família e assistência, e não apenas um abrigo.
Hoje, depois de mais de uma década, é possível ver no trabalho do grupo um diferencial no movimento de Aids e perceber que o nome do filho não foi somente uma maquiagem de benevolência, mas sim de comprometimento real.
Há cerca de 6 anos conheci uma equipe de pessoas que trabalha na Associação François Xavier Bagnoud, entre elas uma “certa” senhora que levava o título de Condessa Albina Du Boisrouvray, mãe do homem que deu origem ao nome da Associação.
Pronto, todos os ingredientes necessários para resistir ao trabalho já estavam completos.
Depois de alguns anos, fui convidado a integrar o grupo e tive dúvida em aceitar. Afinal, eu sempre fui um ativista e não estava disposto a fazer um trabalho que imortalizasse alguém que “poderia” não ter feito jus.
E foi em um momento de lucidez que decidi conhecer a história de François Xavier Bagnoud, que desde o início de sua juventude teve como ideal salvar vidas.
Com suas condições sociais privilegiadas, François usava seu helicóptero para socorrer pessoas nas montanhas geladas da Suíça e no deserto africano. Pessoas perdidas que eram salvas pelas asas solidárias. Contabilizados 300 salvamentos, ele veio a morrer no dia 14 de janeiro, aos 24 anos, quando atendia uma emergência em Mali, oeste da África.
A morte de François levou sua mãe a disponibilizar seus bens em prol de uma associação que viesse amenizar o impacto da Aids nas crianças de vários países. Albina Du Boisrouvray, que não aceita que seu título de condessa seja referência à sua história, muito mais que financiar ações de luta contra Aids, passou a agir na frente ativista lutando por acesso a tratamento não só para as crianças, mas para todas as pessoas vivendo com HIV/Aids no mundo.
Em um encontro durante a Conferência Mundial de AIDS em Bangkok, Albina relatou que “…a Associação François Xavier Bagnoud deve ter como norte o ativismo, pois só assim estaremos trabalhando a necessidade do presente com perspectiva no futuro de uma sociedade mais justa”.
Com a tragédia do Tsunami na Ásia, lá estão os ideais de François em ação emergencial, socorrendo crianças na Tailândia e Índia, ou seja, o socorro deve continuar de acordo com as necessidades, fazendo da filosofia da Associação uma verdadeira razão de existir.
Nesse 14 de janeiro, quando faz 19 anos da morte de François Xavier Bagnoud, resta a certeza que a luta de Albina e de todos os membros da Associação e parceiros, não é santificar o nome de um jovem morto precocemente por meio de um Centro de Pesquisa e Direitos humanos em Harvard ou de ações em vários países do mundo, mas sim imortalizar uma história, história de salvar vidas.
José Araújo Lima, presidente Associação François Xavier Bagnoud-Brasil.
Telefone: (0XX11) 5842-5403
e-mail: araujo.l@uol.com.br
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