Aureliano Biancarelli
O últimos números sobre a aids no país dão conta de que a taxa de infecção diminuiu nos grandes centros urbanos e aumentou nos municípios com menos de 50 mil habitantes. Os números reforçam um cenário que aponta para a feminilização, a interiorização e a pauperização da doença, que já vem sendo anunciado há uma década. O programa brasileiro de prevenção e assistência relacionados ao HIV/aids – que se mantém como exemplo para o mundo – fez muito para conter uma infecção cada vez mais invisível que se espalha nos espaços mais íntimos. Infecção que não se percebe mais nos lugares públicos nem nos programas de TVs e nas páginas dos jornais. Com menor visibilidade, a aids tende a ser vista como de menor gravidade pelas políticas públicas. A preocupação aparece em datas como este primeiro de dezembro e em períodos de festas mais animadas, como o Carnaval. A temática do uso do preservativo reflete um certo esgotamento dos programas de prevenção.
Outro fator de relevância, e que há pelo menos cinco anos vem chamando a atenção dos especialistas, é a relação entre o crescimento da epidemia e a desigualdade de gênero, materializada especialmente na violência contra as mulheres. Essa relação contextual entre violência doméstica e infecção pelo HIV começa aparecer cada vez mais nítida nas pesquisas. Não se limita à epidemia de estupros e violência sexual que marcam as regiões em guerra e com grandes movimentos migratórios.
A relação aids e desigualdade de gênero aparece em todas as classes e países. Constata-se que o crescimento da infecção entre as mulheres está relacionado à gravidez precoce, a abortos e à violência de todos os tipo, física, moral, psíquica. Não por acaso, o Relatório da Unaids sobre a Epidemia Global da Aids 2009, divulgado na semana passada, foi anunciado junto com a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. Pedro Chequer, diretor da Unaids no Brasil, lembra que o enfrentamento da epidemia não pode ser visto mais como uma tarefa exclusiva da Saúde, mas de um conjunto de forças que reúna governo e sociedade civil. Nenhuma instituição, nenhuma empresa, nenhum órgão do governo – do Ministério do Planejamento às Forças Armadas – pode ficar alheio a essa tarefa. Do contrário, enquanto a prevenção caminha para um esgotamento, a epidemia continuará fazendo novas vítimas. E cada vez mais em silêncio.
Aureliano Biancarelli é jornalista
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