Oswaldo Braga
Em abril de 2000, comemorando os 500 anos do Descobrimento do Brasil, o Grupo Gay da Bahia divulgou uma lista com os cem gays que abalaram o Brasil. Entre eles, dois nomes se destacavam: Paulo César Bonfim, natural de Itabuna, fundador do GAPA/SP, a primeira ONG AIDS do Brasil; e Roberto Peruzzo Nascimento, fundador do Grupo de Incentivo à Vida, SP, referência internacional na luta contra a Aids .
Foi graças aos esforços de homossexuais como esses, pessoas com um olhar no coletivo, preocupadas com a evolução de uma epidemia que foi descoberta entre os gays, batizada de “câncer gay”, “peste gay”, mesmo que, menos de um ano depois de descoberta, tenham sido identificados casos em homens e mulheres heterossexuais. Mesmo assim, os gays carregaram – e carregam até hoje, de certa forma – a culpa pela Aids. A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida é mais um motivo para a condenação dos homossexuais.
O retrato da epidemia mudou muito nestes anos. Em 1985, quando Paulo César fundou o GAPA-SP, os homossexuais representavam mais de 80% dos homens infectados no Brasil. Cinco anos depois, chegamos na faixa dos 40% e nunca mais saímos baixamos disso. Há 12 anos permanecemos no mesmo perigoso e elevado patamar.
Ao contrário do que seria lógico, os recursos aplicados no combate e controle da Aids não cresceram na mesma proporção que a epidemia. Sob a ameaça da não continuidade de suas ações, as ONG Aids se esquecem do sentimento que moveu pioneiros como os gays Bonfim e Peruzzo e partem para o “salve-se quem puder, doa a quem doer”. O que vemos hoje é uma participação da sociedade civil burocrática e esforços desperdiçados nessa disputa antropofágica e insana por poder e dinheiro.
Chegamos em 2006 representando 40% dos homens com Aids e somente 1,7% dos recursos investidos em prevenção foram direcionados aos gays e outros homens que fazem sexo com homens. A taxa de incidência entre nós é 11 vezes maior que a da população em geral, ou seja, 226,5 por 100mil habitantes entre os gays contra 19,5 entre as demais camadas da população.
O risco acrescido para a Aids, índice que compara a população infectada entre os gays e os heterossexuais, cunhado pelo matemático-ativista gay Jorge Beloqui, do Grupo de Incentivo à Vida, é 18 vezes maior entre nós. Sem contar o espantoso crescimento da participação dos jovens gays de 13 a 19 anos no bolo da epidemia.
Apesar disso, alguns homossexuais entendem que mesmo esses 1,7% dos recursos não deveriam ser destinados a ações de prevenção entre nós. Gays que se incomodam com a perspectiva de um movimento Aids que volte a se parecer um grande movimento gay. Valem-se da vulnerabilidade do nosso segmento para captar recursos, mas se negam a admitir que sejam promovidas ações que nos contemplem.
Existe uma corrente dentro do movimento Aids semeando a discórdia e o divisionismo. Todos os paradigmas que quebramos, aliados que conquistamos, respeito que cultivamos nesses mais de 20 anos de ativismo se tornam espumas ao vento. Algumas pessoas estão demonstrando que preferem se agarrar ao passado como forma de combater as ações que irão aliviar o nosso futuro, do que se libertar de amarras e se unir ao conjunto como forma de alcançar mais facilmente a vitória.
Oswaldo Braga é presidente do Movimento Gay de Minas (MGM)
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