ERA UMA VEZ… – Doutora Marinella Della Negra – Médica Infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo

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Era uma vez uma doença que ceifava muitas vidas.


Matava muitos e muitos. Foi no século passado.


No início foram somente os adultos, poucos anos depois também as crianças foram acometidas.


No início eram poucas, infectadas preferencialmente por sangue logo depois, com o aumento do número de mulheres soropositivas em fase de procriação, o número de crianças acometidas pela doença foi aumentando. Esta forma de transmissão é chamada de vertical e é a forma mais importante de transmissão da doença para o grupo infantil.


Poucos recursos existiam no início para o tratamento dessas crianças, a não ser detectar precocemente as infecções tratá-las e tentar melhorar o sistema imune com administração de imunoglobulina endovenosa. Nada se tinha, porém, para diminuir a multiplicação e a destruição celular causada pelo vírus, que seguia seu caminho inexoravelmente.


Qual é o nome deste vírus?


HIV – Vírus da Imunodeficiência Humana.


Qual a doença?


AIDS – Síndrome da Imunodeficiência Humana.


Mas, continuando a história, o que os médicos tinham também para fazer, era tranqüilizar a mãe angustiada que vinha com uma série de perguntas, naquele momento, impossíveis de serem respondidas como por exemplo: Quanto tempo meu filho vai viver? Ele vai crescer e ser uma criança normal? Ele vai poder estudar?


Os profissionais desenvolveram uma série de mentiras que quando ditas tinham a capacidade de deixar essas mães, pelo menos, com o benefício da dúvida aliviando seu sofrimento.


Com o passar do tempo, vimos que realmente algumas crianças cresciam saudáveis e hoje são adolescentes que vivem neste século, porém, a maioria delas não ultrapassava os 4 ou 5 anos de idade.


A epidemia era devastadora e o mundo científico investia inteligência e dinheiro à procura da cura e da prevenção, enquanto isso os médicos que acompanhavam esses pacientes seguiam aprendendo a mentir cada vez melhor.


Foi formado mundialmente um mutirão contra o vírus HIV. Um dia, não sei bem que dia foi, mas deveria ser um dia muito ensolarado, quando foram descobertas as primeiras medicações que impediriam a replicação do vírus, e com isso retardavam a evolução da doença.


Novas drogas surgiram uma após a outra. As pessoas aprenderam a se prevenir e com isso o número de infetados diminuiu juntamente com o preconceito.


As mulheres não mais transmitem aos seus filhos o vírus com a freqüência transmitida anteriormente. As crianças não morrem mais aos 4 ou 5 anos. Os profissionais já não mentem mais. Hoje se uma mãe pergunta: Ele vai crescer, vai para a escola?


A resposta não é mais uma mentira, mas uma realidade.


Ele vai crescer.


Essa história não foi escrita através do recolhimento de dados ou manuscritos, mas sim por alguém que por um longo período foi uma grande mentirosa.


 

A Doutora Marinella Della Negra é médica infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas – São Paulo. Telefone para contato no Hospital Emílio Ribas (SP)(0XX11) 3896-1200

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