EPIDEMIA INDETECTÁVEL – Carmen F. Lent é psicanalista e Coordenadora do Banco de Horas
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Carmen F. Lent

Vamos encerrando o ano. Outro ano nas décadas – mais de duas – em que convivemos com um flagelo tanto mais atroz quanto mais alimentado pelas vulnerabilidades contemporâneas. Com infalível radar, percorre as profundezas da trama social explodindo em cada fratura, em cada articulação doentia: onde há carências, onde há ignorância, onde há preconceito, onde há discriminação, há transmissão do vírus, há expansão da incidência. O cuidado com o corpo infectado pelo vírus hiv é sem dúvida uma questão de urgência médica, mas como continuar ignorando que a epidemia de aids não é apenas – e nem sequer prioritariamente – um problema de saúde?

No Brasil, a intensa e apaixonada articulação entre ativismo, pesquisa e intervenção oficial, a tensão de colaboração e demanda entre sociedade civil e Estado, outorgou à assistência às pessoas vivendo com hiv/aids uma eficácia que mereceu reconhecimento internacional. Os medicamentos foram colocados ao alcance da população e, com o uso dos novos surgidos após 1995, a mortalidade foi expressivamente reduzida. Aleluia.

A ação do popularmente chamado “coquetel” torna indetectável, em muitos casos, a carga viral da pessoa soropositiva. Mesmo sem encontrar ainda maneiras de eliminá-lo definitivamente, há expressiva redução da quantidade de vírus, permitindo recuperar razoavelmente a capacidade imunológica do organismo. Produto das pesquisas internacionais e das iniciativas locais: muita menos gente doente, menos gente morrendo. Visibilidade do combate à aids no Brasil, dentro e fora de suas fronteiras.

Visibilidade dos resultados da assistência, sim… Visibilidade da epidemia de aids, não… Estabeleceu-se o mal-entendido: a chamada “carga viral indetectável” transformou-se atualmente em “epidemia indetectável”. Os números de redução da mortalidade foram confundidos com os da incidência de novos casos. Mas, pasme o leitor que achava o contrário ou que meramente deixou de achar qualquer coisa a respeito: ao invés da afortunada redução da mortalidade das pessoas vivendo com hiv/aids, o número de pessoas que vai sendo infectada ainda continua crescendo.

Algumas das razões mais óbvias para as sombras: se a epidemia é considerada um problema de saúde, haver disponibilizado a medicação para tratar da doença, continuar à procura de vacinas e melhores tratamentos, já atinge o objetivo, não é verdade? Agora, se ela não é somente um problema de saúde, melhor desconhecer sua existência, não é? “Ai não podemos fazer nada”. Sim, porque, o que fazer com as drogas traficadas que assombram as famílias que tem filhos adolescentes desde o morro ao condomínio, instalando a guerrilha urbana e as balas perdidas e achadas; e agora, além disso, transladam o desapercebido hiv de uma veia para a outra? Onde a coragem, a sabedoria de introduzir camisinhas – isto é, uma prática de sexo mais seguro – nos casamentos declarados monogâmicos, sem questionar os relacionamentos, sem desobedecer às instruções religiosas? Ou como simplesmente – tão simplesmente – tomar a iniciativa de propor o uso do preservativo em qualquer relação, homo ou heterossexual, sem com isso provocar a ira dos deuses e enfrentar a possível debacle do vínculo em questão? A perda irrecuperável do momento de tesão? Se a epidemia não é mais assunto, porque iria uma futura mãe fazer um teste pré-natal para o hiv, exame não obrigatório, se está perfeitamente bem e não tem nenhum indicador suspeito? Ora, só porque um doutor diz que seria aconselhável? Porque um pai iria conversar com seu filho para incentivar condutas seguras, se afinal o rapaz não é gay e ele já ouviu falar que as mulheres não transmitem aids? Aids? Que aids? O que é isso? O que preocupa é casa e comida, risco é perda de emprego, isso sim…

Perguntamos: por que não há referência à existência da epidemia nas novelas da televisão, veículo por excelência das opiniões e saberes populares? Por que não há matérias periódicas nos jornais, programas na televisão e rádio, a cargo de ótimos profissionais que existem dentro do combate à epidemia (desde ativistas a advogados, psicólogos, sanitaristas, antropólogos, médicos, sociólogos, economistas, etc) para trazer a público diversos aspectos que demandam informação, sensibilização, consciência. Por que, como é praxe em outros paises, não há (ou há tão poucos) shows e eventos, beneficentes ou não, onde os artistas – exímios formadores de opinião – possam contribuir a jogar um holofote sobre o tema e evitar tantas novas infecções? Por que temos que ver fitinhas vermelhas somente por televisão na noite de entrega do Oscar e não temos a prática de usá-las com uma freqüência cotidiana que evidencie nosso compromisso com o bem-estar?

Todo esse silêncio é mera coincidência? A invisibilidade da epidemia bate na muralha da estrutura da sociedade. Um vírus que circula pelo âmago mesmo da existência, no encontro sexual e no correr do sangue, declara que o comportamento é responsável pela propagação das infecções e nós, todos nós, somos responsáveis pelos comportamentos. É possível produzir as transformações. Todo dia é primeiro de dezembro, mesmo.

Psicanalista

Coordenadora do Banco de Horas do IDAC (Rio de Janeiro)

E-mail: carmen@bancodegoras.org.br

Artigo originalmente publicado no editorial Opinião, jornal O Globo, em 28 de novembro de 2002

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