Envelhecer LGBT+ é memória, resistência e futuro. Com este tema, nós integrantes da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo convidamos a todos, todas e todes a olhar com carinho, respeito e acolhimento para uma parte essencial de nossa comunidade: as velhices LGBT+.
O manifesto produzido por quem faz parte da Associação celebra e homenageia quem desafiou o tempo, rompeu barreiras e pavimentou os caminhos para todos que, com orgulho e vontade de transformar, vivenciou afetos e construiu sua história.
Cada fase da vida merece dignidade, um olhar acolhedor, lugar de fala e representatividade. Nesta 29ª edição, nossa luta continua viva e mais forte do que nunca.O tempo nos fortaleceu. O orgulho nos uniu.
Você faz ideia do que seja envelhecer em uma comunidade que tem sido discriminada, estigmatizada e colocada à margem das discussões e da formulação de políticas públicas de saúde, cultura e cidadania em diversos espaços e no transcorrer do tempo?
Não fosse pela resistência, força, determinação e vontade de viver suas identidades plenamente, muitos espaços de poder e representatividade não teriam sido conquistados por pessoas da nossa comunidade.
Pesquisas mostram que pessoas LGBTQIA+ com 50 anos ou mais estão levando a pior quando o assunto é saúde. Comparado com quem não é da comunidade, esse grupo recebe menos cuidados, tanto no SUS quanto na rede privada.
O estudo foi feito por pesquisadores do Hospital Albert Einstein, da USP e da Universidade de São Caetano do Sul, e foi publicado na revista científica Clinics. Foram ouvidos mais de 6.600 pessoas de todo o Brasil por meio de um questionário online e anônimo. Dessas, 1.332 se identificaram como LGBTQIA+.
Os resultados mostraram que 31% das pessoas LGBTQIA+ estão entre quem tem menos acesso à saúde no país. Já entre quem não é LGBTQIA+, esse número é de 18%. Ou seja, tem uma diferença considerar entre os dois grupos.
Quando se gente olha para exames de rotina, a disparidade aumenta. Por exemplo: 74% das mulheres heterossexuais disseram que já fizeram mamografia.Entre as mulheres LGBTQIA+, 40% realizaram o mesmo exame. No caso do exame de colo do útero, 73% das héteros tiveram acesso a diagnósticos, contra 39% das LGBTQIA+. Exame de intestino, 57% dos héteros tiveram acesso e realizaram o exame. Na população LGBTQIA+, 50% é o registro divulgado.
Um dos problemas que foram registrados é que muitos profissionais de saúde ainda olham para população LGBTQIA+ só contemplando as ISTs (infecções sexualmente transmissíveis). Isso vem lá dos anos 80, quando a homossexualidade foi associada de forma preconceituosa ao HIV. Esse estigma permanece e atrapalha, e muito,o cuidado com a saúde .
Se visibilidade e terceira idade ainda não são sinônimos no processo de envelhecimento saudável, o tema da Parada deste ano quer justamente chamar a atenção para isso. Para que a população LGBT+ possa envelhecer com dignidade e plenitude, é fundamental que políticas públicas considerem essa fase da vida, respeitem sua história e garantam o direito de participação nos debates e construções sociais. Precisamos que nosso envelhecer seja incluído, respeitado e representado, e que nosso lugar de fala ecoe entre todas as comunidades. Só assim traremos mais cidadania, dignidade e humanidade para todas as velhices LGBT+.
* Almir Nascimento é diretor institucional da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo.
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