Luciano Milhomem
É, sem dúvida, merecido o êxito de “A Lua Me Disse”, novela das 19h da TV Globo. Em um momento em que “América”, exibida às 20h30, enfrenta dificuldades para conquistar de vez o público, a trama bem-humorada de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa tem despertado o interesse de milhões de telespectadores em todo o Brasil. Tem escracho, situações bizarras, personagens carismáticas.
Convém, no entanto, estar atento a duas questões sociais – contempladas na novela en passant – que, à primeira vista, podem parecer irrelevantes em uma trama de humor. Uma é a disseminação, junto à juventude, de doenças sexualmente transmissíveis, sobretudo a Aids. Outra é a gravidez na adolescência, também chamada de gravidez precoce. Pesquisa recente do IBGE sobre maternidade no Brasil chama a atenção para “o continuado rejuvenescimento da fecundidade, resultado do número de mães em idades muito jovens (…)”.
No capítulo de “A Lua Me Disse”, veiculado no último dia 30 de maio, a personagem Adalgisa Goldoni (Stella Miranda) conversa com a filha, Soraya (Juliana Baroni), logo depois de esta ter sido presenteada com um anel de brilhantes pelo namorado, Pedro Bogari (Rafael Paiva). A jovem indaga da mãe se deveria devolver o presente, mas Adalgisa encoraja a filha a aceitá-lo. Depois, mostra-lhe o que, segundo ela, outras moças fazem para prender namorados ricos: espeta uma agulha numa embalagem de preservativo masculino. Fica claro, na cena em questão, que Adalgisa, na verdade, está dando uma idéia à filha, e esta começa a refletir tão logo a mãe se retira.
O que poderia ser um alerta tanto para as moças – que não deveriam agir dessa forma leviana e arriscada – ou para os rapazes – que deveriam prestar atenção na embalagem de camisinha que recebem das jovens com quem terão relação sexual – converte-se em verdadeira lição de como engravidar um jovem rico desavisado. É preciso reconhecer o aspecto humorístico e caricato das personagens, mas preocupa particularmente o fato de não ter havido, imediatamente em seguida à cena acima descrita, nenhuma outra seqüência em que fosse apontado o risco de se fazer sexo sem preservativo ou com o preservativo danificado. É perfeitamente plausível que algumas jovens brasileiras aproveitem a idéia e, no afã de engravidar do namorado, possam não somente enfrentar o drama de uma gravidez precoce, mas também contrair doenças sexualmente transmissíveis ou HIV/Aids.
É cem por cento defensável a liberdade no processo criativo, sobretudo em uma comédia, entretanto, conhece-se também o poder de influência e fascínio que a televisão exerce sobre os telespectadores, principalmente adolescentes. Seria recomendável, portanto, que cenas como a exibida no último dia 30 pudessem, de alguma forma, dar margem a reflexões contrárias à que a personagem Adalgisa estimulou. Longe de defender uma postura moral ou o cerceamento da liberdade criativa, em detrimento do humor e da naturalidade que contribuem para o sucesso da novela, é importante também atentar para a possibilidade de novelas assim exporem, involuntariamente, jovens a situações de risco.
Mesmo que, no desfecho da novela, a jovem interesseira se dê mal, até lá as idéias mirabolantes para fisgar um “bom partido” já terão sido veiculadas a um público tão vasto quanto heterogêneo, seja em termos de formação educacional, seja em condições materiais. Não por acaso, educadores e comunicólogos defendem intransigentemente o diálogo entre pais e filhos (e entre educadores e estudantes), como forma de se filtrar e debater a torrente de informação que crianças e jovens recebem dos meios de comunicação. Se, na ficção, o mal quase sempre tem remédio; no mundo real, o menor deslize ético pode comprometer o desenrolar de toda uma vida.
Luciano Milhomem é mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade de Brasília, com dissertação sobre telenovela brasileira.
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