ENFRENTANDO A AIDS COM SOLIDARIEDADE E LUZ – Denise Moraes é figurinista e artesã. Vive com o HIV há nove anos

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Denise Moraes

Faz nove anos que eu descobri que era soropositiva. Fiz parte da geração sexo, drogas e rock and roll. Sempre namorei muito, fiz muito amor, mas sempre me protegi. Minha história deve ser igual à de muitas mulheres de minha geração. Depois dos filhos criados, já na faculdade, saindo do segundo casamento e com a vida mais tranqüila, achei que nunca iria me infectar. Aliás, a gente nunca acha que vai acontecer com a gente. Eu estava fazendo tratamento dentário para fazer implantes. A dentista percebeu uma alteração na minha língua. Fiz uma série de exames, inclusive o teste de HIV.Deu negativo. Segui minha vida. Mais para frente um pouco, fui fazer meu papa nicolau anual. Assim, sem pensar em HIV, recebi meu resultado positivo.

O momento em que a gente recebe o resultado parece que o mundo vai cair em cima da cabeça da gente. Eu não tinha nenhuma informação. Morri de medo e vergonha de contar para meus filhos. Fiquei tão atordoada e sem saber o que fazer que peguei o carro e saí correndo e contei para minha mãe, que na época tinha 74 anos. O mais incrível é que ela, mesmo assustada, me acolheu e ajuda até hoje. Contei para meus filhos. Muito duro. Eu tinha muita vergonha, afinal ia parecer que eu era promíscua. Tinha muito preconceito dentro de mim mesma. Meus filhos também me acolheram. Ajudaram-me a descobrir que eu não ia morrer. Cheguei a ficar um ano de pijama em casa lendo bula de remédio esperando os efeitos colaterais acontecerem. Tomava banho várias vezes ao dia. Não pagava as contas, não escovava os dentes. Nada. Aos poucos, com a força dos meus filhos que teimavam em me por pra cima, fui percebendo que não tinha nada a ver ficar esperando a morte chegar.

Venci uma série de barreiras. Aceitei minha soropositividade. Me informei. Conheci mais pessoas que também viviam com HIV. Comecei a fazer artesanato e participar das feirinhas no CRT. Passei a me cuidar mais. Voltei a namorar. Sempre fiz amor com meus parceiros soronegativos usando camisinha. Atualmente, me trato. Faço artesanato. Malho pelo menos três vezes por semana.Vou voltar a estudar e quero fazer faculdade de psicologia. Se eu pudesse parar o mundo e dizer alguma mensagem para os homens e mulheres, eu diria : “gente a Aids está aí. Não tem idade, não tem grupo de risco, não tem raça, não tem credo. Gente, o HIV está aí, mas a nossa força também está.”

Cadê os estudos para os efeitos colaterais que acontecem nas pessoas que tomam os remédios? Cadê um monte de coisas que nós mulheres precisamos? Cadê o dinheiro para pesquisas em efeitos colaterais que todos nós que vivemos com o HIV precisamos? Por exemplo, isenção tarifária para quem ainda não teve nenhuma doença oportunista, mas tem que ir três vezes por semana fazer tratamento. As mulheres grávidas com HIV não podem dar de mamar e o poder público precisa dar assistência a elas, não só na hora do parto e durante a gestação. Não é possível que a gente ainda escute casos de mulheres que não passaram o HIV para seus filhos durante a gravidez e os infectaram depois por conta da amamentação.

Quero também dizer: não caiam nessa de que Aids não mata mais, que virou doença crônica. Pode até ter virado, mas é diferente sim de diabetes e de outras doenças crônicas por conta dos efeitos colaterais. Existem mulheres, e homens também, que sofrem com efeitos muito sérios de lipodistrofia e mulheres com menopausa e osteoporose precoce. Para tudo isso, é preciso ter um outro olhar e atitude. Para lidar com o HIV e a Aids como tem que ser é preciso ter mais comprometimento, atitude e um olhar mais solidário. Tem um provérbio chinês que diz que solidariedade é como deixar alguém acender uma vela na chama de sua vela. Sua vela não vai se apagar e mais pessoas serão iluminadas. É isso que precisa acontecer para que o mundo enfrente melhor a Aids. Mais solidariedade e luz.

Denise Moraes é figurinista e artesã. Vive com o HIV há nove anos.
Email: denise.moraes2005@ig.com.br

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