Por Beto Volpe
Muito se faz neste mundo em nome do Pai. Em nome d’Ele são atirados
aviões sobre vidas, são explodidas mulheres em meio a multidões, são executados homossexuais e outras pessoas que pensam ou agem de forma diferente das Escrituras. Em nome d’Ele o destino de 33 milhões de pessoas foi alterado, sendo que outros tantos o tiveram selado, pois não se pode usar ‘contraceptivos’. As relações entre o Ministério da Saúde e a Igreja Católica nunca foram prósperas quando o assunto é AIDS e azedam quando se fala em preservativos. Porém, finalmente veremos um trabalho em conjunto entre a Igreja e o Estado no sentido de deter uma epidemia e de melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. A recém lançada Campanha de Incentivo ao Diagnóstico Precoce de HIV e Sífilis joga uma Luz nessa relação tão conturbada e um reforço importante para duas frentes de batalha na área da Saúde.
Claro que não se pode esquecer uma série histórica de verdadeiras atrocidades cometidas pela Igreja Católica. Que, em nome do Pai, as inquisições européias torturaram e vitimaram milhões de pessoas ao redor do mundo. Em nome do Pai foram massacrados nativos latino-americanos, tanto física quanto culturalmente. Em nome do Pai foi provocada a diáspora africana, tendo seus povos e culturas dolorosamente pulverizados pelo mundo. Em nome do Pai, a igreja católica manteve-se neutra durante a Segunda Guerra Mundial, o episódio mais sangrento da história da humanidade. Em nome do Pai até hoje homossexuais e mulheres são tolhidos em seus direitos individuais.
Mas é um marcador histórico, sem dúvida. A aprovação da CNBB à iniciativa das pastorais da AIDS, da Saúde e da Criança demonstra que quando se trabalha com as afinidades, os progressos são visíveis. O estímulo, entre os fiéis, à testagem para o HIV e para a sífilis ataca frontalmente duas situações onde o Brasil fez poucos avanços e vem colhendo resultados negativos: o diagnóstico tardio e a ainda muito presente sífilis congênita. Está de parabéns a Igreja por, pela primeira vez, abrir seus portais para ações na luta contra a aids no âmbito de prevenção e diagnóstico. Parabéns ao Ministério da Saúde, por aplicar o princípio da redução de danos em sua gestão, ao ter flexibilizado as negociações sobre uso de preservativos e ter valorizado outros pontos em que o diálogo e as ações acontecem com mais facilidade. E mantendo, fundamentalmente, o princípio do Estado laico nas articulações.
Outro bom exemplo acontece em São Paulo, onde um grupo de trabalho consegue reunir praticamente todas as correntes religiosas em torno de um propósito: o que podemos fazer em conjunto na luta contra a aids. Essa proposta vem tendo repercussões, com a instalação de três grupos regionais, sendo o mais recente o da Costa da Mata Atlântica, no litoral paulista. Sociedade civil, governo e instituições religiosas conseguem avançar em suas afinidades, fertilizando o solo para as negociações mais complicadas, como o uso dos preservativos, por exemplo. Ou os vários casos de ‘cura’ pela fé, seja na palavra de um pastor que faz tratamento com antirretrovirais, seja na de uma curandeira que acredita fazer o bem.
Resta lutar, ou rezar, para que o governo continue nessa aproximação, mas não se esqueça que ele não pode falar em nome do Pai. Quando o Estado fala em nome do Pai, corre o sério risco de cometer as mesmas atrocidades que a Igreja, em nome do Pai, comete historicamente. É preocupante que acordos estejam sendo estabelecidos concedendo prioridades no ensino religioso. Especialmente quando o ensino religioso privilegiado acredita em abstinência, fidelidade e camisinhas nem pensar. Deus nos livre!
Em nome do Pai,
da Mãe
e das filhas de santo,
Amém
Beto Volpe, pessoa com a qual o HIV vive há 20 anos preside o Grupo Hipupiara em São Vicente/SP e é membro da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV. Contatos: betovolpe_rnp@yahoo.com.br
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