O Mopaids não tem candidato: tem compromisso com a democracia, o SUS, a ciência e a defesa da vida.
O Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids (Mopaids) é e continuará sendo apartidário. Não pertence a partido, não está a serviço de candidatura e não orienta voto em nomes. Mas apartidarismo não é ausência de princípios, nem neutralidade diante da retirada de direitos, do preconceito ou do enfraquecimento de políticas públicas que protegem vidas.
O Mopaids não tem candidato. Tem lado: o dos direitos humanos, da democracia, do SUS, da ciência e da dignidade. O lado das pessoas vivendo com HIV e aids, da população LGBTQIA+, das mulheres, da população negra, das pessoas trans e travestis e de todas aquelas que precisaram lutar para serem reconhecidas como cidadãs de direitos.
Nas Eleições 2026, o voto não escolhe apenas um nome. Escolhe quem terá poder para elaborar leis, aprovar orçamentos e definir quais políticas públicas serão fortalecidas ou enfraquecidas. Para quem construiu sua trajetória na luta contra a aids, isso não é uma questão abstrata.
A história do HIV no Brasil mostra que saúde nunca foi apenas uma questão médica. A epidemia sempre esteve atravessada por desigualdade, preconceito, racismo, LGBTfobia, pobreza e moralismo. Foi contra esse cenário que o movimento social se organizou — e dessa luta vieram conquistas que hoje parecem naturais: tratamento gratuito pelo SUS, testagem, PEP, PrEP, prevenção combinada, redução de danos, defesa do sigilo e o reconhecimento de que uma pessoa com carga viral indetectável não transmite o HIV por via sexual.
Nada disso foi concessão espontânea. São conquistas políticas, sociais e científicas construídas ao longo de décadas. E tudo o que foi conquistado pode avançar, mas também retroceder. Por isso, a política de aids também está dentro da urna.
Quando um candidato fala sobre financiamento do SUS, está falando também sobre aids. Quando se posiciona sobre ciência, prevenção, educação sexual, diversidade e direitos reprodutivos, revela como compreende as condições necessárias para uma resposta efetiva ao HIV. E quando transforma pessoas LGBTQIA+, trans ou travestis em inimigos imaginários para conquistar votos, também demonstra como compreende a cidadania e a dignidade humana.
O movimento conhece bem os efeitos desse discurso. Já vimos gays responsabilizados pela epidemia, pessoas vivendo com HIV tratadas como ameaça, o medo substituindo a informação e o preconceito ocupando o lugar da ciência. Por isso, não podemos aceitar que pessoas trans e travestis voltem a ser transformadas em alvo eleitoral. Identidade de gênero não pode ser usada para fabricar pânico, espalhar desinformação ou retirar humanidade de quem já enfrenta preconceito e violência diariamente.
Uma mulher trans não precisa que alguém concorde com sua existência para ter direito ao SUS. Um casal homoafetivo não precisa da autorização moral de um governante para constituir família. Uma pessoa vivendo com HIV não pode ter sua dignidade condicionada ao julgamento de terceiros. Direitos só são verdadeiramente direitos quando alcançam também quem é diferente de nós.
Antes de votar, precisamos olhar além da propaganda eleitoral. O que cada candidato pensa sobre o SUS, a política de HIV e aids, prevenção, PrEP, PEP e tratamento? Como se posiciona diante da ciência, da população LGBTQIA+, das pessoas trans, das mulheres e da população negra? Como votou quando teve mandato? Que projetos apresentou? Que grupos defendeu? O que fez quando teve a oportunidade de transformar discurso em política pública?
Não precisamos de candidatos que se lembrem da aids apenas no dia 1º de dezembro. A resposta ao HIV precisa existir durante todo o mandato — no orçamento, nos serviços, no acesso à prevenção e ao tratamento, no combate ao estigma e no diálogo com a sociedade civil.
Movimentos sociais não são inimigos dos governos. São parte fundamental da democracia. Foram eles que ajudaram a construir uma das respostas mais reconhecidas à epidemia de HIV e aids. Para quem faz parte dessa história, votar é também um exercício de memória: carregamos conosco aqueles que lutaram quando falar de aids significava enfrentar medo, preconceito e morte e que abriram caminho para que outras pessoas pudessem viver.
Nossa responsabilidade com essa história não é viver olhando para trás. É impedir que o país retroceda.
Quando entrarmos na cabine de votação, nossas escolhas não atingirão apenas a nossa própria vida. Elas chegarão à pessoa trans que precisa ser respeitada em uma unidade de saúde, ao jovem que busca informação sem medo de julgamento, à pessoa vivendo com HIV que precisa retirar seu medicamento com dignidade e a quem depende integralmente do SUS.
Vote também pensando em quem mais precisa que o Estado exista.
O Mopaids continuará dialogando com governos de diferentes partidos sempre que houver disposição para construir políticas que protejam vidas. E continuará cobrando qualquer governo, independentemente da legenda, quando direitos forem ameaçados.
Essa é a nossa independência: ser apartidário significa não estar subordinado a partidos. Não significa não ter valores.
Não somos neutros entre o SUS e seu enfraquecimento. Entre ciência e desinformação. Entre acolhimento e preconceito. Não somos neutros diante do racismo, da misoginia, da homofobia, da transfobia ou da discriminação contra pessoas vivendo com HIV.
Nas Eleições 2026, o Mopaids não pede voto para um candidato. Pede consciência, memória e responsabilidade.
Porque o voto é secreto e individual, mas suas consequências nunca são.
Entre o preconceito e a dignidade, temos lado. Entre a exclusão e a cidadania, temos lado. Entre o abandono e o cuidado, temos lado.
Nosso lado é, e sempre será, o lado da vida.
* Eduardo Barbosa, coordenador do Mopaids, presidente do Grupo Pela Vidda São Paulo e professor.
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