Diego Callisto*
22/07/2016 – Chegou ao fim a 21ª Conferência Internacional de Aids, que este ano aconteceu em Durban, na África do Sul. Começo avaliando a Conferência como um todo e foi bem propositiva, fomentou importantes discussões em relação ao enfrentamento da epidemia de aids e temas transversais, como, por exemplo, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis, uma agenda global de compromissos firmados entre países recentemente.
Essa foi a primeira edição com inclusão das pré-conferências: funcionou como um evento a parte e com temas específicos, como :a “Action+Access”, organizada pelo fórum global de HSH (homens que fazem sexo com homens), a “No more lip services”, organizada pela rede global de mulheres transexuais e HIV ou a “Living 2016”, organizada pela rede global de pessoas vivendo com HIV. Todas essas sessões ligadas tiveram algo em comum: foco específico e discussões aprofundada sobre os temas escolhidos, o diálogo entre pares, o fortalecimento da comunicação entre pessoas com interesses em comum, com maior protagonismo e autonomia para intervenções e debates durante as sessões.
Já na programação oficial, o conteúdo e temas relacionados as plenárias satélites e atividades da Global Village, foram bem diversificados, vi por lá pessoas renomados no combate à aids com experiências exitosas em relação ao tema abordado na programação da conferência. A qualidade técnica deste evento foi indiscutível, quem participou terá a oportunidade de rever e repensar projetos, estratégias ou até mesmo ponto de vista sobre determinada temática, como as questões ligadas acesso e visibilidade do preservativo feminino. Assisti algumas sessões relacionadas à prevenção e saúde sexual e produtiva e vi o quanto o Brasil esta avançado nesse aspecto, visto que somos o país que mais compra preservativos feminino no mundo, além de ser um dos poucos que disponibiliza esse insumo de prevenção de forma gratuita na rede pública de saúde. Conversei com algumas ativistas da África subsaariana e elas me fizeram que um dos focos da luta é incorporar o preservativo feminino como parte da prevenção combinada em seus respectivos países, considerando que na África a epidemia é concentrada em mulheres heterossexuais e o acesso gratuito e a devida informação sobre este insumo ajudaria no combate ao HIV.
A distribuição dos temas de discussão também foi bacana no evento. Tivemos excelentes roteiros para se organizar, a programação contou com temas essenciais para uma discussão comprometida com o combate a epidemia de aids. Esse formato tornou mais fácil a criação de um itinerário para as acessões e atividades conforme área de interesse ou agenda de trabalho. A programação contou ainda com discussões que sempre estiveram presentes em outras conferências: a cura, vacinas, pesquisas para o HIV…
Em 2014, quando estive na Conferência de Melbourne, alguns temas não foram abordados com a riqueza de detalhes que vi por aqui, como as sessões sobre coinfecções de HIV com hepatites ou tuberculose, populações-chave e as discussões sobre adolescentes separadas das discussões sobre jovens.
Celebridades
Certamente a 21ª Conferência foi muito feliz em relação a escolha das celebridades que discursaram nas sessões especiais, considerando que tanto Elton John, quanto o príncipe Harry e a atriz Charlize Theron, fizeram discursos inspiradores e emocionantes para uma atenta e lotada plateia. Charlize foi espetacular discursando na sessão de abertura do evento. Muito empoderada, ela arrancou aplausos da plateia dizendo que é preciso união e um somatório de forças entre as diferentes instâncias e defendendo fortemente o protagonismo de jovens, colocando-os como os agentes das transformações sociais necessárias para o fim da aids no mundo. Elton John também falou do poder e do potencial transformador que os jovens têm. Já o príncipe Harry fez uma ótima e assertiva fala no sentido de destacar a redução de financiamento e fundos para a aids. Esse foi um ponto chave que perpassou toda a conferência: estamos enfrentando um difícil momento, em que os recursos direcionados para o combate a aids foram drasticamente reduzidos e isso pode comprometer o futuro da resposta a epidemia.
É fundamental restabelecer os investimentos no âmbito da saúde global e fortalecer a resposta do mundo em relação a aids. O mais delicado será repensar esse processo considerando os cortes de financiamento de projetos e organizações e a redução de fundos de apoio ao combate da aids. Acredito que sem investimentos não é possível uma resposta eficaz e integrada com as questões que envolvem o fim da aids em níveis epidêmicos ate 2030. É preciso rever e repensar o cenário de saúde global, considerando as diferentes formas de obter financiamento e pensando na política de aids como algo emergencial e prioritário para qualquer país minimamente comprometido com a saúde e o desenvolvimento humano de sua população.
Analisando a questão de adolescentes e jovens, gostei muito do nível técnico das sessões, das atividades na Global Village, sobretudo as exposições e intervenções feitas por adolescentes e jovens e comunidades que trabalham com essa população. É fundamental dissociar adolescentes de jovens nas discussões, principalmente porque são recortes etários que possuem diferentes especificidades e querem, partindo disso, diferentes estratégias e ações tanto de engajamento quanto de empoderamento.
Adolescentes e jovens
Uma coisa que me incomodou muito em Melbourne, em 2014, foi que algumas das sessões que assisti abordavam ambas as populações de forma igual e, no final das contas, o que se falava e o que se encaminhava era sempre voltado para a juventude e não para adolescentes. Dessa vez, em Durban, a Conferência recebeu as críticas da edição anterior, oferecendo ótimas sessões especificas para adolescentes e outras para jovens. Houve uma sessão sobre adolescentes, da qual Charlize foi palestrante, na qual ela falou sobre a necessidade de empoderar e encorajar os adolescentes considerando que essa faixa etária é composta por uma importante fase de mudanças, na qual questões sobre educação sexual e direitos humanos tornam-se fundamentais nesse processo. Não existirá resposta eficaz contra a epidemia aids se não houver investimento, engajamento e empoderamento de adolescentes e jovens.
Um ponto alto sobre jovens na Conferência foram as sessões voltadas para mídias sociais e aplicativos. Especialistas dessa área disseram que o jovem esta cada vez mais conectado e integrado as transformações e tecnologias. Nesse sentido, as tecnologias de informação se configuram como uma importante ferramenta para trabalhar conteúdos de saúde e prevenção, já que muitos aplicativos, como Grindr, Hornet e Tinder se configuram como espaços virtuais de sociabilidade e interesses em comum. Um especialista que trabalha para o Hornet citou que esses aplicativos tem a intenção de ajudar a levar informação para aqueles que os acessam e contribuir na resposta a epidemia de aids, não o contrário. Segundo ele, é preciso uma junção de estratégias no sentido de trabalhar comunicação em saúde numa linguagem acessível e através de tecnologias das quais os jovens estão conectados e inseridos.
A diretora do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, Adele Benzaken, fez uma importante fala em relação a profilaxia pré-exposição (PrEP), no sentido de informar que a previsão é implementar essa tecnologia de prevenção no SUS ainda esse ano e que provavelmente já em agosto o protocolo clínico de diretrizes terapêuticas estará disponível para consulta pública. A fala reverberou positivamente em vários países, visto que muitos colegas participantes da conferência conversaram comigo, em distintos momentos, sobre essa notícia e do quão significativo será isso do ponto de vista de avanços e de incorporação de tecnologias que dialoguem com o modelo de prevenção combinada, do qual muitos países têm adotado. Um colega dos EUA relatou que com a concretização dessa iniciativa, o Brasil será o primeiro país em desenvolvimento a disponibilizar essa tecnologia de prevenção de forma gratuita, e isso é algo inovador e que possivelmente irá acelerar a corrida para implementar a PrEP em outros países também em desenvolvimento, mas que investem e avançam muito pouco para que a PrEP se torne uma realidade.
PrEP
A PrEP foi o tema protagonista das sessões na conferência: transversalizou praticamente todos os debates e foi o foco das discussões envolvendo avanços no controle da infecção pelo HIV. Dados sobre diversos estudos de PrEP foram apresentados no evento, como o HPTN073, que foi desenvolvido especificamente com homens gays e HSH negros e o Ipergay, que apresentou dados da eficácia do uso da PrEP sob demanda, de forma intermitente, isto é, usada conforme a ocorrência de relações sexuais e não mais de forma continuada, diariamente como é o modelo de uso implementado nos EUA por exemplo. A embaixadora do PEPFAR (Plano Presidencial de Emergência para Combater a Aids) fez uma importante fala sobre PrEP, dizendo que qualquer país seriamente comprometido com o fim da aids e com a saúde, não medira esforços para que a PrEP seja implementada e se torne uma realidade acessível para todos que dela necessitem. Ela complementou destacando que conforme os contextos de vida e as práticas sexuais das populações-chave, o acesso a PrEP se torna uma medida fundamental para que essa população não continue a ser afetada pelo HIV.
Por fim, acredito que a conferência, realizada pela segunda vez em Durban (em 2000 o país recebeu o evento pela primeira vez) deixa uma importante mensagem de que é preciso rever e repensar as relações institucionais e as parcerias, para que tenhamos agendas integradas e de fato comprometidas com a resposta a epidemia de aids. Para além da discussão de assuntos técnicos, científicos, políticos e sobre direitos, o retorno deste grande evento em Durban mostra que o mundo e, principalmente, o continente africano (aproximadamente 25 milhões de pessoas infectadas pelo HIV), necessitam de mudanças, de novas estratégias e abordagens para que respostas como o fim da aids em níveis epidêmicos até 2030, o desenvolvimento de uma vacina eficaz para o HIV ou até a própria cura, não passem de expectativas criadas e que são capazes de mexer com a esperança e o sonho das quase 40 milhões de pessoas que vivem com HIV no mundo.
* Diego Callisto é jovem, gay, soropositivo e assessor técnico do Departamento de DST, AIDS e Hepatites Virais, do Ministério da Saúde.
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