Valéria Polizzi
O primeiro sinal é se estranhar na frente do espelho. Não importa o que se come ou que se faça exercícios, a massa corporal, agora, auto-suficiente, toma a forma que ela bem entender. A gordura some dos braços e das pernas, concentrando-se no tronco. Veias e vasos sanguíneos tornam-se aparentes. O corpo de aspecto desumano, parece ter vindo de outro planeta. E o espelho? Melhor não olhar o seu reflexo.
O começo da acentuação da lipodistrofia é difícil para todas as pessoas que vivem com Aids. Segundo o infectologista, Caio Rosenthal, ela atinge, em diferentes graus, de 75 a 80% dos pacientes soropositivos. Quando os primeiros casos surgiram, em meados da década de 1990, os especialistas achavam que a manifestação era um efeito colateral dos inibidores de protease – um tipo específico de remédio contra o HIV. Entretanto, pacientes que tomavam outros tipos de remédios, ou não tomavam nenhum, também começaram a apresentar os mesmos sintomas.
“Hoje acreditamos que a causa seja uma somatória dos efeitos colaterais dos remédios, mais do próprio HIV e alguma pré-disposição do organismo”, explica Rosenthal. Além das áreas de acúmulo e perda de gordura, também podem ocorrer alterações metabólicas como aumento dos triglicérides e colesterol e uma maior incidência no surgimento de osteoporose e diabetes. Por isso, atualmente, prefere-se denominar o quadro como Síndrome da Redistribuição de Gordura (SRG). E a opinião dos especialistas quanto à prevenção e tratamento é unânime: praticar exercícios físicos – aeróbicos e de musculação – além de uma dieta balanceada.
“Hoje, indico a todos os meus pacientes soropositivos que façam alguma atividade física, de preferência com acompanhamento de um especialista, não fumem e evitem gorduras em sua dieta. É um auto-investimento” diz Rosenthal. Alguns, no entanto, demoram a se conscientizar. E esse foi o meu caso.
Durante toda minha vida eu havia praticado algum exercício. Nunca fui atleta, simplesmente fazia parte da minha rotina. Quando a SRG começou a aparecer, larguei a academia. “Já que não tem remédio e nem solução, que se dane”, eu pensava. Os médicos insistiam: “Voltar ao normal, talvez não volte, Valéria. Mas exercício físico ajuda muito. Abaixa inclusive o colesterol e o triglicérides. E é a única coisa que podemos receitar nesse caso.” Eu relutava.
Até que um dia, um deles me aconselhou: “Esqueça os objetivos a longo prazo. Comece com algo que lhe dê prazer.” Lá fui eu para a piscina. Nada como deslizar na vertical, o corpo leve sustentado pelo líquido que te envolve e ampara, ao mesmo tempo em que, a cada braçada, escorre pelos braços. Tudo fica azul dentro d’água, ao som de aquário, onde as bolhas translúcidas sou eu quem cria, com o ar que pego na superfície, respiração, nariz e boca. Ali dentro já não importa minha forma, sou um só corpo com o elemento fluído, que toma a forma, de qualquer forma, de seu recipiente. Sinto-me um golfinho.
Resolvo expandir meus horizontes. Posições esdrúxulas e belas. Alongo cada milímetro do meu corpo, me equilibro de ponta cabeça, me dou um nó com pernas e braços. Fecho os olhos, as mãos em prece, e viajo ao som do OM, nessa arte milenar que é o yoga.
Começo a achar que posso tudo. Puxar ferro, porque não? As repetições desafiam minha perseverança. Cada peso me deixa mais forte. E de série em série a endorfina vai a mil. E não é que aos poucos percebo renascer músculos em mim? Um bíceps no braço, um tríceps no outro, um abdutor na coxa…
Auto-estima e sangue agradecem. E o espelho volta ao seu lugar. E se caminho na praia de biquíni, e alguém, em sentido contrário, me mede de cima a baixo estranhando a falta de perfeição, sigo em frente com a alma leve. “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.
Valéria Polizzi, 35 anos, soropositiva há 20, é estudante de jornalismo e autora dos livros “Depois daquela viagem”- diário de bordo uma jovem que aprendeu a viver com aids. E “Enquanto estamos crescendo”. Ambos da Editora Ática.
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