Por Frei Luiz Carlos Lunardi
O natal é uma festa que contagia as pessoas. Mesmo quem não tem vinculação religiosa com o cristianismo se deixa envolver pelo clima de luz e confraternização que nesta época do ano difunde pela sociedade, famílias e grupos. Na cultura cristã, o natal é marcado pela esperança. Este sentimento vem desde a formação do povo de Deus quando viviam escravizados, mas buscavam forças para viver na promessa dos profetas que anunciavam um tempo em que o messias, o libertador, viria e traria um reino de liberdade e vida plena. Para os cristãos, Jesus Cristo é a realização desta profecia. E o natal é a ocasião de celebrarmos este grande presente que Deus nos deu: Ele veio morar no meio de nós.
Inspirada no exemplo de Jesus, a Igreja organizou a Pastoral da Aids para servir quem se encontra infectado com o HIV e quem pode vir a ser infectado. Em Aparecida, os bispos da América Latina afirmaram: “Consideramos de grande prioridade fomentar uma pastoral com pessoas que vivem com o HIV e aids, em seu amplo contexto e em seus significados pastorais: que promova o acompanhamento compreensivo, misericordioso e a defesa dos direitos das pessoas infectadas; que implemente a informação, promova a educação e a prevenção, com critérios éticos, principalmente entre as novas gerações para que desperte a consciência de todos para conter a pandemia. A partir desta V Conferência pedimos aos governos o acesso gratuito e universal aos medicamentos para a aids e a doses oportunas” (Documento de Aparecida, 421).
Este trabalho de prevenção e cuidado junto às pessoas que vivem e convivem com HIV e aids é feito hoje em todo Brasil por milhares de agentes de pastoral a partir do voluntariado. É um trabalho de acolhida, acompanhamento e solidariedade com as pessoas que necessitam. É o exercício do mandato de Jesus que pede que sejamos cuidadores e defensores da vida onde ela esteja ameaçada. São inúmeros os trabalhos e projetos desenvolvidos pela Pastoral, desde Casas de apoio, Centros de convivência, ações de prevenção em áreas vulneráveis e ações de cunho comunitário.
Muitos nos perguntam e frequentemente estamos explicando por que trabalhamos com “estas pessoas”, por que o trabalho com aids? Muitos até sugerem que não vale à pena ou que a morte “para estes” é eminente. Sim a morte é eminente, a dor é evidente e o sofrimento também é presente, mas para quem não é? Isto tudo faz parte da natureza humana, não temos o direito de julgar e nem definir o destino de ninguém. Somos chamados a estender a mão e, solidariamente, viver e conviver dando o suporte necessário a cada um que necessitar.
Nestes últimos dias, marcados por celebrações e forte energia de fim de ano, férias e natal, observei as pessoas que frequentam a Casa Fonte Colombo em Porto Alegre. A constatação que se faz é surpreendente: realmente é possível viver com aids e também é real que quem mata não é o HIV, mas sim o estigma e o preconceito. Nota-se a vida fervilhando no burburinho das pessoas conversando alegremente no pátio. Pessoas de todos os perfis. É prova evidente da vida que continua florescer no extremo cuidado das mães gestantes, no sonho e na esperança de cada um que continua acreditando na vida e toma o medicamento, faz seus exames e adere ao tratamento, naqueles que se protegem e protegem quem amam. No rosto lindo, bem cuidado e alegre das crianças que brincam sem parar, provando que a energia da vida não lhes falta.
Se Natal é tempo de luz e de esperança, é na vida “teimosa” das pessoas que vivem e convivem com HIV que o natal mostra seu real significado. A vida é realmente um Dom de Deus.
Frei Luiz Carlos Lunardi é assessor nacional da Pastoral da Aids
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