Ermanno Allegri
Quando foi anunciado o nome do Cardeal Joseph Ratzinger como novo Papa, a Praça de São Pedro ficou visivelmente perplexa por alguns momentos. Depois vieram os aplausos.
Pessoalmente continuo perplexo porque o atual Bento XVI foi o braço forte de João Paulo II que não se abriu a mudanças significativas. Firme na defesa de doutrinas, às vezes passadas no tempo, o novo Papa não vai provocar um deslocamento significativo do eixo doutrinal da igreja católica.
No mundo, porém, há grandes problemas que devem ser enfrentados, como o massacre que o capital financeiro vem praticando contra a humanidade; a degeneração da vida das pessoas e do planeta perpetrada por grupos econômicos locais e supranacionais; a corrupção de políticos e magnatas que condenam milhões de pessoas à miséria; a doutrinação midiática que falseia as consciências e cria robôs sociais…
Em relação a estes novos ‘pecados sociais’ não se trata simplesmente de fazer um documento para falar deles, mas se deve estimular (e não perseguir) os cristãos e as igrejas a assumi-los como tarefa histórica que é, para nós, a construção do ‘Reino de Deus’ como compromisso de fé ‘aqui e agora’. Muitos estão metidos nesse trabalho sem esperar pelas ordens ou licenças de cima.
E encontramos também desafios quentes dentro da própria igreja: o exercício da autoridade, o pluralismo teológico, a formação e a vida do clero, a posição de ‘soldado raso’ do leigo e da mulher em particular, o exagerado centralismo europeu etc. Tudo indica que Bento XVI não irá abrir o jogo nesses assuntos.
Continuarão, assim, a existir divergências muito fortes, em relação às questões éticas e sociais. Pessoalmente, sinto-me fortemente incomodado pelas posições opostas de quem condena (sem admitir debate) o aborto, inclusive nas situações em que não deveria ser chamado com esse nome, assim como pela atitude de quem, em nome da modernidade ou de direitos individuais, transforma o aborto num fato corriqueiro e banal.
B
Assim também, em relação à condenação indiscriminada do uso de anticoncepcionais: é urgente abrir os olhos ao gigantesco problema da Aids (é dramático o banner da Agencia de Notícias da Aids: só em 2003, 4,8 milhões de infectados e 2,9 milhões de mortos) porque qualquer atitude humana e moral deve ser norteada pela radical defesa da vida. Mas também não imagino que a camisinha resolva tudo se não se educa ao respeito do outro e ao valor profundo da relação entre as pessoas.
B
É pela existência dessas posições tão diferenciadas que as igrejas deveriam entrar, sincera e humildemente no debate. Ignorar as divergências ou chegar com a receita pronta, é a pior atitude porque a sociedade não fica esperando: ela, pela necessidade, é obrigada a ‘digerir’ tudo que acontece e que aparece, para encontrar soluções. Pelo ‘poder de fogo’ que a igreja tem, por sua credibilidade e influência em grandes massas de pessoas, ela não pode se negar a participar do debate (ou do choque, até!) e saber mudar sua posição, se for necessário, para poder aprofundar e massificar a compreensão do valor da vida, individual e coletiva.
E isso com muito realismo porque o acontecer da vida não é linear: primeiro a, depois b, depois c… A vida da maioria das pessoas é vida atropelada, massacrada que não se desenvolve dentro de padrões lógicos. Nestas situações as igrejas e seu Papa em particular, devem aceitar o desafio urgente que vem da realidade. Devem saber escutar e dar atenção às pessoas mais do que a normas obsoletas: como fez Jesus Cristo.
Ermanno Allegri é Diretor da Adital – Agência de Informação Frei Tito para a América Latina e Caribe – e Vigário no bairro Tancredo Neves, em Fortaleza.
Apoios



