Por Luiz Líbano
Baseada no livro de Valéria Piassa Polizzi, a peça de teatro “Depois daquela viagem” (nesta primeira temporada apresentada em diferentes unidades do Sesc nos meses de outubro e dezembro), cujo texto é de Dib Carneiro cria um marco no que se pode chamar de “teatro da cura”. Quer dizer, em tempos de tanta fugacidade, loucura e previsibilidade, vemos no palco um grupo de 14 jovens talentosos e cheios de energia dando conta do recado de transmitir a uma plateia atenta a história de uma jovem, infectada pelo vírus da aids tão prematuramente.
A vivacidade do grupo realmente encanta o espectador, além de envolvê-lo num assunto tão árido, pouco agradável de ser discutido, muito menos de ser visto. É o que se pode imaginar a priori. Porém, a posteriori , diante da ágil, cativante e criativa direção de Abigail Wimer, toda a plateia se sente em casa, como se estivesse assistindo a uma telenovela das sete em que o humor predomina.
É óbvio que (apesar da leveza comparável ao clima dos folhetins telenovelescos) o foco não é a superficialidade, muito pelo contrário; o enfoque é a superação de uma garota (Valéria) que tão jovem (aos 16 anos de idade) contraiu o vírus HIV por puro vacilo, quando não fez uso do preservativo ao transar com um namorado.
Ressalto a agilidade da direção do espetáculo que soube tirar o melhor de um elenco juvenil espirituoso e afinado entre si, o qual entra em cena de forma despojada, num palco nu, apenas preenchido pela luz. Apresentam-se , então, as personagens dando deixas que sinalizam para o preconceito. Ou seja, vão se dando falas que mostram que os alvos de rejeição não são apenas os soropositivos, mas os negros, judeus, os nordestinos e afins: ‘farinha do mesmo saco’ ou ‘afetados pelos mesmos buracos’ , o da discriminação.
A partir daí, centralizam-se olhares discriminatórios na figura de um dos atores que é rechaçado do grupo pela sua diferença, pela sua marca, que não seria de nascença, mas a marca de um ser que não é bem aceito em grupos, em tribos, em guetos por uma distorção, uma deficiência. Isso tudo é apenas sugerido com a expressão corporal dos atores e uma coreografia corporal bem definida, limpa e bem demarcada. É dada a largada para a viagem de Valéria, a qual será preenchida pelas dores, pelos dissabores e pelas dúvidas do porvir.
Interessante frisar que o personagem da protagonista é feito por três garotas que se revezam durante o transcorrer da peça, o que sinaliza (de certa forma) três prováveis fases da garota: a criança, a adolescente e a mais adulta ou (reforçando essa ideia) a infantil/sonhadora; a rebelde/questionadora
e finalmente a adultescente/procuradora, procuradora de si, da cura, de um norte, de um amor, um novo horizonte.
Bem, para preencher o diário de bordo da jovem Valéria em cena, a Diretora do espetáculo se vale de uma engenhosa imaginação, criando cenas inesquecíveis como: as da mãe da garota dialogando com as plantas; a garota negra que se põe a cantar um reggae do Bob Marley, as cenas em que se decide (ou não) pelo jogo da verdade; a transformação dos objetos de hospital num palco de balada e o abrir festivo de um champanha pelo médico, que festeja o momento em que Valéria decide (finalmente) fazer uso do coquetel etc.
Passando rápida e parcialmente pelos momentos de crise da personagem, mas sem nenhum drama exacerbado (apesar de se saber que na realidade o buraco é bem mais embaixo), a peça mostra aos espectadores parte de um triste, desconfortável, desconsertante e dilacerante episódio realista.
Porém, nem por isso, o público se sente menos tocado; muito pelo contrário, pois a leveza com que se contam os fatos é responsável por encaminhá-lo (paradoxalmente) à dureza indiscutível vivida pela personagem central.
Bem, depois de todas as viagens pelas quais teve de excursionar a heroína Valéria, surpreende-nos a cena final em que os atores aparecem em cena com mochilas nas costas, a caminho de uma nova viagem. Eis que surge a figura de um herói (romântico e realista ao mesmo tempo, por que não?) para surpresa de Valéria (ou do trio que a compõe e simpaticamente interage nesse momento mágico e crucial). O herói, então, sem o mínimo de hesitação se pronuncia, pois pretende firmemente segui-la em sua nova trajetória. Desce o pano. Veem os aplausos. E na plateia a emoção e a convicção de que os finais felizes nem sempre são apenas hollywoodianos ou piegas, apenas (e também) possíveis, como os amores, após tantos horrores.
Luiz Líbano é escritor e Professor de Português, formado pela PUC, desde 1984. Já trabalhou também como ator, dançarino e cantor.
Os artigos publicados pela Agência de Notícias da Aids são de inteira responsabilidade dos colaboradores e não expressam obrigatoriamente as opiniões desta agência.
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