Duas décadas de orgulho e cidadania!

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Cássio Rodrigo*

20/05/2016 – Aos gritos de “Somos muitos e estamos em todas as profissões!”, puxados por uma perua Kombi munida de caixas de som no teto, um pequeno mas não tímido grupo se ajuntava na Avenida Paulista, num chuvoso 28 de junho de 1997 para dar início à Primeira Parada do Orgulho LGBT de São Paulo.

Esse era o começo de um dos maiores movimentos sócio-político-cultural e de visibilidade da população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, mulheres transexuais e homens trans do mundo.

Entre os anos de 2000 e 2002, a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo teve um salto quantitativo de 100 mil para 500 mil pessoas, ampliando o calendário de atividades e criando o Mês do Orgulho LGBT de São Paulo. Em 2004, com um público estimado em 1,5 milhão de pessoas, foi registrada no “Guinnes World Records”, o “Livro dos Recordes Mundiais”, como a maior manifestação do gênero no mundo, mas seu ápice foi em 2007, com a estimativa de 3,5 milhões de participantes.

Foi com esse quadro que a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo impôs respeito e ganhou espaço junto às políticas públicas de construção da cidadania LGBT e combate à discriminação por orientação sexual e/ou identidade de gênero.

Desde 2007 a Parada figura como um dos três eventos oficialmente autorizados pela Prefeitura de São Paulo para ocupar a Avenida Paulista, ao lado da Corrida de São Silvestre e do Réveillon. O motivo? Sua força política e econômica!

Ao longo de duas décadas a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo tem pautado uma série de temas que tratam sobre direitos civis e o combate à LGBTfobia, como: "Temos Família e Orgulho" (2004), "Homofobia é Crime! Direitos Sexuais são Direitos Humanos" (2006), "Por um mundo sem Racismo, Machismo e Homofobia" (2007), e "Homofobia tem cura: educação e criminalização", em 2012.

Em 2005 a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, em parceria com várias universidades como UERJ, USP e Unicamp, realizou uma pesquisa com o público presente, revelando que 57,6% das pessoas que estavam no evento pediam para que a população LGBT tivesse mais direitos, frente  a 26,7% que compareciam por curiosidade ou diversão e 8,9% por solidariedade a amigos ou parentes LGBT.

A pesquisa apontou, ainda, que dentre os participantes, 25,9% se declararam heterossexuais e quando perguntados que leis ou projetos beneficiavam a população LGBT, 40,4% lembraram-se da parceria civil e 26,7%, de leis antidiscriminação, apontando o tom político do evento.

Em relação ao poder econômico da Parada, o Observatório de Turismo e Eventos (núcleo de estudos e pesquisas da SPTuris – Empresa Municipal de Turismo e Eventos) levantou dados na Parada LGBT de 2012, apontando que quase 40% do público era composto por turistas. Destes, a maioria era formada por turistas domésticos (97,4%) e 2,6% eram estrangeiros. De acordo com o levantamento, os turistas da Parada ficam mais de três dias na cidade e gastam, em média, R$ 1.272 no período.

Esses dados fizeram com que o Observatório, em 2013, lançasse o estudo "Mercado GLS paulistano", um levantamento específico sobre o segmento na cidade de São Paulo, incluindo quantificação da oferta de estabelecimentos especializados e a movimentação financeira. Os dados revelaram um impacto do setor na economia paulistana que, em menos de um ano, chega a movimentar R$ 59,5 milhões.

O estudo demonstrou a existência de quase 80 estabelecimentos voltados para o público LGBT ou bastante frequentados por ele. A maioria dos locais concentrados nas regiões da Paulista, Jardins, Pinheiros e no Centro, fazendo com que a cidade de São Paulo fosse eleita o quarto melhor destino gay do mundo segundo o “GayCities”.

Os dados revelam, ainda, o poder que a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo exerce para a economia da maior cidade do país, não podendo ser desprezada nem por comerciantes mais conservadores. Foi esse poder que levou, a partir de 2007, a Prefeitura de São Paulo e a ABRAT GLS – Associação Brasileira de Turismo para Gays, Lésbicas e Simpatizantes, a capacitar o trade turístico de São Paulo, estimulando essa rede de estabelecimentos friendly, desde hotéis, bares, restaurantes até a cooperativas de táxi para bem receber o público que vem para a cidade.

A SPTuris também editou o “Guia GLS de São Paulo”, com mapas e dicas de estabelecimentos, passeios, exposições e calendário de atividades para lésbicas, gays, bissexuais, travestis, mulheres transexuais e homens trans usufruírem nesses dias.

No âmbito do Estado, as polícias civil e militar somam forças para garantir a segurança dos participantes da Parada do Orgulho LGBT, com ações de prevenção às manifestações LGBTfóbicas antes, durante e depois de cada evento que compõe a Semana da Diversidade Sexual de São Paulo. Coordenados pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, a DECRADI, os policiais buscam mapear as ações de grupos intolerantes e coibir qualquer violência à população LGBT. No domingo da Parada é montada uma central de apoio, ao longo do trajeto, inclusive para registrar boletins de ocorrência de pequenos furtos.

Outra importante conquista foi a criação do Museu da Diversidade Sexual, localizado na Praça da República, no piso mezanino da Estação República do Metrô e inaugurado na Parada de 2012. O equipamento, da Secretaria de Estado da Cultura, promove, a cada ano, durante o Mês do Orgulho LGBT, novas exposições que trazem a tona discussões importantes como a LGBTfobia no futebol ou a recém inaugurada exposição “Sonhar o Mundo”.

Celebrando o reconhecimento da diversidade sexual e de gênero como parte dos Direitos Humanos e as lutas por igualdade ao redor do mundo, a exposição foi idealizada por Paulo von Poser e Marcio Zamboni, e apresenta uma série de instalações interativas que brincam com suportes diversos, abordando temas como educação, sofrimento, lutas, inspirações, segredos e corpos.

Na área da saúde, o período da Parada do Orgulho LGBT é também utilizado para incrementar as ações de prevenção e testagem para as DST/HIV/aids, trazendo à discussão a importância em se prevenir e em difundir ao máximo a informação, como forma de garantir à população em geral os subsídios necessários para exercer sua cidadania.

Neste ano a Associação da Parada do Orgulho LGBT, para ampliar a participação da sociedade civil, realizou uma série de reuniões ampliadas para definir as diretrizes macros, desde o tema político a ser adotado, até a questão de representação e participação da militância nos trios elétricos que irão tomar a Avenida Paulista no domingo, 29 de maio.

Modelo

Além disso, há 20 anos a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo vem sedimentando seu espaço político e servindo de propulsora para uma série de ações promovidas por instâncias governamentais estaduais e municipais, e servindo de modelo para outras Paradas em todo o Brasil, não a toa que o país já chegou a ter número recorde de Paradas, em 2008, com mais de 195 Paradas do Orgulho de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, mulheres transexuais e homens trans (LGBT). Em 2011, esse número subiu para 387 paradas (segundo a ABGLT), mas reduziram força em 2014, quando foi registrado 108 manifestações desse gênero realizadas em território brasileiro, contra as 124 registradas no ano anterior.

Assim, precisamos estar atentos, enquanto movimento social, para esses números, pois em muitos casos, a diminuição vem como consequência de eleição de governos teocráticos ou conservadores que acabam por negar o apoio que, a duras penas, o movimento LGBT vem conquistando ao longo dos anos.

Que venha, então, a maioridade!!

* Cássio Rodrigo é jornalista e coordenador de Políticas para a Diversidade Sexual do Estado de São Paulo

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