DOCUMENTÁRIO SOBRE AIDS DA TV CULTURA EXPÕE REALIDADE HUMANA – João Meireles – Psicólogo

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Assisto na madrugada de sexta para sábado, 11 para 12 de julho de 2003, o documentário autoral do jornalista Paulo Markun, produzido pela rede pública de televisão – TV Cultura – AS SETE FACES DA AIDS. Se tivesse assistido no SESC V.Mariana no dia 25 de Junho de 2003, teria visto sua primeira apresentação pública. Não pude comparecer na ocasião e talvez estaria proibido de vê-lo publicamente se a justiça continuasse a atender a liminar proposta por alguns dos entrevistados de Markun. Estes exigem o seu direito legítimo de não querer ver exposto publicamente uma ou algumas de suas facetas, alegando que o documentário distorce a realidade de seus depoimentos ao não colocá-los dentro do seu devido contexto, quando da entrevista e, ao fragmentá-los, destaca aspectos pessoais que gostariam de não ser revelados ou que, segundo interpretam, expõe um “modus vivendi” que muitos já não têm, ou que são atitudes e comportamentos privados cuja exposição poderia não só manchar sua imagem pessoal como também a própria imagem dos soropositivos. É compreensível! A AIDS é uma síndrome que ao mesmo tempo nos trai e nos subverte. Trai ao revelar a nós e ao mundo o que ocultamos e não conseguimos sustentar para nós próprios e muito menos para outros. Trai ao nos fazer perceber que por mais que queiramos defender algumas de nossas “personas” isto é impossível, pois por sermos plurais somos muito mais amplos que nossas personagens públicas.Trai ao revelar e expor as faces humanas e quebrar o espelho do simulacro humano. É compreensível, não há aparato psíquico que suporte olhares, opiniões e julgamentos constantes. Não há quem suporte ver ou imaginar-se nu durante todo o resto da vida. O documentário é contundente, vivo, real, comovente, honesto, inteligente, elucidativo, artístico, belo. Uma obra que tem que ser mostrada em todas as tvs, praças, escolas, centros de convivência em todo o mundo e fomentar discussões e aprendizagens. Traz a trajetória da AIDS no Brasil e o histórico de alguns brasileiros que, por suas ações individuais e coletivas, são revolucionários ao produzirem a maior transformação que nós brasileiros, sem que a maioria saiba, criamos no planeta no final do século XX e começo do XXI: a forma bio-psico-social brasileira de combate a AIDS, que já serve e servirá muito mais de exemplo em todo o mundo. O documentário de Markun e da Rede Cultura é o Brasil mostrando a sua cara. O rosto humano, batalhador, suado de luta, pobre, esperançoso.A dignidade de homens, mulheres e crianças. A luta sem tréguas de vida e morte. O embate interminável entre os “rochedos” individuais e o “mar” coletivo. O “quantum” subversivo de Vida diante da inércia conservadora da Morte. É compreensível. Um documentário como este não pode ser impedido de ser visto por milhões de pessoas. Ele não distorce a realidade humana, pelo contrário, ele expõe as realidades humanas. Ao mesmo tempo é compreensível que indivíduos, e talvez a própria sociedade, não o queiram ver revelados. Isto não é censura moralizadora e disciplinar (e, portanto, a tentativa de impedimento não pode ser tratada apenas sob a ótica de velhos “clichês” que a mídia utiliza na defesa do direito à informação).A liminar solicitada por alguns destes verdadeiros revolucionários é uma defesa legítima e libertária de sua privacidade, um jeito de não serem atacados por outra forma devastadora de vírus. Lutam pelo nosso direito de viver e morrer em paz. O que aprendi ao ver o documentário, em uma sessão privada entre a noite de sexta e a manhã de sábado, é que nós brasileiros ao mostrarmos nossa cara, vida e glórias deixamos de pertencer a nós mesmos. Passamos a pertencer como povo a uma nação, a uma identidade planetária bem maior que nossos egos. Tomamos a dimensão do quanto somos fortes e vivos. Da importância de nossos exemplos e contribuições à vida e a uma melhor qualidade de convivência ambiental humana . Por isto faço um apelo a todos os Eduardos, Nairs, Marias e Josés que deram seus depoimentos: vocês são infinitamente maiores e melhores que qualquer particularidade porventura revelada, suas vidas e ações são educativas e exemplares e foram muito bem respeitadas pelo editor, diretor e ser humano Paulo Markun. È fundamental a exposição do documentário porque, além de educativo, seus aspectos preventivo, informativo e explicativo subvertem uma forma paternalista, culposa e dissimulada de tratar a AIDS. Ele se alia à própria luta de vocês e de nós todos contra a ignorância, medos e preconceitos que formam o substrato desta síndrome. Ao expor a fragilidade de nossa privacidade também revela a força de nossas ações individuais que se tornaram públicas. E isto não é demérito de ninguém individualmente e sim o mérito de uma ética cidadã coletiva e participativa.

João Meirelles é psicólogo. Telefone para contato (0XX11) 9609-8718

Apoios