DILEMAS DO PROFISSIONAL DE SAÚDE NO MOMENTO DO PARTO NA PREVENÇÃO DA TRANSMISSÃO VERTICAL – Carla Vita Decotelli atua como assistente de pesquisa no G

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Carla Vita Decotelli – Médica, formada pela UFRJ. Residência em Pediatria pelo IPPMG/UFRJ. Mestrado em Saúde Pública pela ENSP/FIOCRUZ.

Como médica e pediatra, no decorrer dos últimos anos tenho estudando a medicina na era da aids. Nos plantões em maternidades e atendimentos ambulatoriais realizados na rede pública do Rio de Janeiro, especialmente em um Hospital Universitário, verifiquei a trajetória de crianças antes mesmo de nascerem até tornarem-se doentes.
Como profissional de saúde, alguns questionamentos sobre a realidade da transmissão e conseqüente infecção passaram a me acompanhar, tais como:

1)Por que a transmissão continua a ocorrer, mesmo com tantos insumos liberados através de diversas portarias do Ministério da Saúde?
2)O que leva um profissional de saúde a não solicitar, em determinado plantão, o teste rápido anti-HIV ?
3)Por que o aconselhamento para o teste anti-HIV muitas vezes não é realizado?
4)Por que a diversidade de rotinas e de programas em uma mesma maternidade podem conflitar-se?
5)Quem são os profissionais envolvidos na linha de frente da batalha contra a transmissão vertical do HIV no momento do parto?
6)O que eles têm a dizer sobre suas atividades?
Estas perguntas e questionamentos impulsionaram-me quanto à escolha do objeto deste estudo e orientaram-me na exploração deste tema.

Esse estudo foi relevante a partir do momento em que as medidas de prevenção conhecidas e pactuadas através de portarias e rotinas, não estão sendo cumpridas, mesmo com as condições fornecidas pelo Ministério da Saúde. Desejamos ressaltar quais são os fatores que determinam à adesão ou não dos profissionais de saúde a essas normas preventivas. Se a identificação destes fatores permitiria que ações específicas fossem atribuídas aos seus responsáveis. E que se viabilizassem ações potencializadoras destas normas ou que novas discussões sobre o teor das mesmas fossem promovidas.

O profissional de saúde envolvido no momento do parto possui a responsabilidade de realizar as rotinas e normas preconizadas pelo programa nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e aids para a prevenção da transmissão vertical do HIV. Porém, suas atitudes e crenças podem gerar resistência em relação a estas normas. A análise da implantação de uma rotina com o foco no profissional envolvido, somada às medidas de prevenção, podem levar a identificação não só de problemas, mas também de propostas de ajustes e melhorias.

Este estudo visa compreender os dilemas relacionados à constituição e os processos de trabalho da equipe de saúde na implementação e desenvolvimento das ações de controle da transmissão vertical do HIV no momento do parto. Um de seus objetivos consiste em descrever o conhecimento da equipe de saúde em relação às rotinas do Ministério da Saúde e suas atitudes diante da prevenção do HIV. Outros objetivos do trabalho foi o de identificar as atividades que a equipe de saúde tem maior dificuldade de desenvolver e propor estratégias para maior difusão das medidas e rotinas no serviço como conseqüência da proposta inicial de trabalho.

Essa pesquisa é exploratória, qualitativa que se utiliza do estudo de caso de uma maternidade do Rio de Janeiro para realização de entrevistas semi-estruturadas com profissionais de saúde envolvidos no parto. Os profissionais entrevistados foram selecionados por profissão identificada nos prontuários. As entrevistas gravadas foram transcritas e analisadas pela técnica de análise do conteúdo.

Foram entrevistados médicos (obstetras e pediatras) , enfermeiras e técnica de enfermagem. Entre os médicos entrevistados a principal barreira encontrada para a adesão as recomendações da prevenção da transmissão vertical do HIV foi a resistência a elas. Os médicos detinham conhecimento satisfatório acerca das rotinas, mas isso não foi o suficiente para o cumprimento e internalização dessas medidas. Entre o grupo de profissionais de enfermagem as formas de disseminação das rotinas no serviço e a dificuldade do profissional se identificar com o seu papel no fluxo de atividades do programa.

Também foram detectados facilitadores tanto individuais quanto contextuais para a adesão as recomendações. Entre os médicos o sistema de “cobrança” realizado pelo serviço, como uma forma de supervisão contínua, pareceu ser uma importante forma de estimular ao cumprimento das atividades. No grupo da enfermagem a motivação favorável no local de trabalho mostrou ser um facilitador para a realização das medidas preconizadas.

Os processos de trabalho e as características pessoais de cada profissional podem influenciar diretamente a realização das medidas de prevenção preconizadas. O conhecimento das rotinas é satisfatório, mas é acompanhado de dúvidas quanto à sua eficácia, permitindo que as opiniões pessoais, e não as normas guiem toda a conduta. A difusão do conhecimento das medidas de prevenção, a implantação de rotinas e a promoção da aderência do profissional em serviço são fundamentais para o controle do HIV em crianças.

Criar no próprio serviço subsídios para realizar avaliações das rotinas implantadas no nível do executor destas ações, permitirá criar soluções locais para melhor implantação do programa.

Carla Vita Decotelli – Participou de atividades humanitárias na área médica no interior do Nordeste brasileiro e em Angola. Realizou internato em peditaria na Vanderbilt University, EUA. Atuou por alguns anos em neonatologia em hospitais públicos e particulares do Rio de Janeiro. Atua como assistente de pesquisa no Grupo LASER (Laboratório de Avaliações de Situações Endêmicas Regionais) da ENSP/FIOCRUZ.

Tel.: (0XX21) 2598-2656

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