DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL PARA QUEM? – Dra. Rosemary – Madden – Representante do Fundo de População das Nações Unidas

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL PARA QUEM?


Na “Conferência da Terra”, realizada em Joanesburgo, em agosto do ano passado, Peter Piot, diretor executivo do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS), fez importante alerta aos líderes mundiais: “Se continuarmos a permitir que a aids nos prive de recursos humanos, o desenvolvimento sustentável será impossível.” Piot foi enfático: “É muito simples. Se você não sobrevive, não pode se desenvolver.”


O relatório do UNAIDS, preparado especialmente para a conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável, merece atenção. O documento adverte para o risco de retrocesso e alerta para ameaças às próprias Metas de Desenvolvimento do Milênio, que a comunidade internacional prometeu atingir até 2015. Os países mais afetados pela aids contemplam a perspectiva de perder, em função da epidemia, muitas conquistas. Esses países servem de alerta para outros que têm falhado na prevenção e no controle da doença.


Mesmo no Brasil, onde o Ministério da Saúde realiza trabalho exemplar em prevenção e tratamento da aids, as estatísticas alertam para que não se perca de vista, em nenhum momento, a importância de se resguardar o futuro de crianças e jovens, infetadas ou afetadas pelo HIV/aids. O “Estudo da Mortalidade de Mulheres de 10 a 49 anos no Brasil”, patrocinado pelo Ministério da Saúde com a participação da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e realizado pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, traz números dignos de atenção.


O material do estudo consistiu de declarações de óbitos de mulheres de 10 a 49 anos, residentes em capitais de estados brasileiros (exceto Rondônia) e no Distrito Federal, ocorridos ao longo do primeiro semestre de 2002. Registrou-se um total de 3.297 casos. Entre as mortes por causas infecciosas, a aids foi a principal (60%), correspondendo a 93% na Região Sul e 40%, na Norte. Em 35% dos casos, o intervalo de tempo entre o diagnóstico e a morte foi inferior a 12 meses. Na maioria deles, verificou-se a associação entre tuberculose e aids.


Segundo o Ministério da Saúde, registraram-se cerca de 258 mil casos de aids no Brasil do início da década de 1980 até 2002. Desse total, 5.597 são adolescentes de 13 a 19 anos de idade e quase 23 mil são jovens na faixa etária entre 20 e 24 anos. Considerado o fato de o soropositivo poder viver entre 10 e 15 anos sem apresentar sintomas da doença, o número de pessoas que se tornaram HIV positivas, na faixa etária de 15 a 24 anos, pode ser maior. Cabe destacar que, anualmente, cerca de 4 milhões de jovens tornam-se sexualmente ativos no Brasil, os quais, sem orientação devida, podem ficar vulneráveis às doenças sexualmente transmissíveis e ao HIV/aids.


Verificar e admitir a gravidade do quadro mundial no que se refere à aids são passos importantes, mas insuficientes para garantir a vitória sobre a epidemia em nível planetário. São igualmente necessárias estratégias para se enfrentarem os fatores socioeconômicos que tornam as pessoas vulneráveis ao HIV/Aids assim como os aspectos culturais que incluem a negação sistemática dos direitos humanos – entre eles o estigma e a discriminação dirigidos a determinados grupos de pessoas.


O tripé “Políticas Públicas + Alocação de Recursos + Ação” é a chave para o controle global da aids. Experiências bem-sucedidas em alguns países evidenciam a viabilidade da prevenção, do tratamento e da assistência às vítimas da epidemia. A América Latina e o Caribe apresentam provas de que governos de países de baixa renda podem oferecer tratamento e assistência. No Brasil, onde mais de 100 mil pessoas recebem grátis o coquetel para tratamento da aids, o índice de óbitos por aids, no ano 2000, foi um terço menor que o de 1996, evitando-se aproximadamente 230 mil internações. Êxito equivalente tem tido os programas brasileiros de prevenção. A prevalência de HIV entre jovens usuários de drogas injetáveis, por exemplo, reduziu-se drasticamente nas maiores cidades do país. Grande parte do êxito brasileiro deve-se também à ação da sociedade civil organizada, em permanente estado de mobilização. 


Mais do que descritivo, o relatório do UNAIDS é propositivo ao apontar saídas para o combate à epidemia. Enumera cinco prioridades que, interligadas, podem levar à redução significativa do número de infectados, à expansão do acesso ao tratamento e à assistência aos que precisarem e à redução do impacto da aids no desenvolvimento social e econômico: 1- comprometimento por parte das autoridades de diversos setores (público, privado, sociedade civil), 2- mobilização comunitária, 3- envolvimento das pessoas que vivem com HIV/Aids, 4- superação do estigma e da discriminação e 5- proteção dos mais vulneráveis (mulheres e jovens).


É imprescindível agir para que as previsões não se confirmem. Em duas décadas, mais de 20 milhões de pessoas morreram vítimas da aids no mundo. Até 2020, estima-se em 68 milhões o número de mortes prematuras nos 45 países mais afetados pela epidemia. Jovens e mulheres devem estar no centro das atenções. No final de 2001, 11,8 milhões de jovens viviam com HIV/Aids no planeta – dentre eles, 7,3 milhões do sexo feminino. As desigualdades de gênero estabelecem um círculo vicioso: tornam as mulheres economicamente vulneráveis e, dessa forma, aumentam entre elas a vulnerabilidade também à epidemia, o que, por sua vez, contribui para mais desigualdade de gênero. Há, portanto, um risco de deterioração do processo na igualdade de gênero, o que contraria princípios básicos estabelecidos nas conferências internacionais do Cairo (1994) e de Pequim (1995).


É evidente que, diante de tão aterradora perspectiva, desenvolvimento sustentável implica, antes de tudo, garantir a sobrevivência de milhões de pessoas. A Declaração de Compromisso sobre HIV/Aids,  acordada por diversos governos em junho de 2001, oferece um ponto de partida para a ação. Cabe, portanto, a todos e a cada um a tarefa de evitar que ela se torne apenas um instrumento de retórica. Deve-se agir. Sempre. Ininterruptamente. Ou a quem servirá o desenvolvimento?


 


Por Rosemary Barber-Madden


Representante do Fundo de População das Nações Unidas


Presidente do Grupo Temático do UNAIDS no Brasil


 


 

Dra. Rosemary Barber-Madden – é a representante do Fundo de População das Nações Unidas no Brasil, e presidente do grupo temático UNAIDS no Brasil.Viveu durante três anos na África onde foi representante do UNFPA em Angola. Contato com Luciano Milhomem – consultor de Mídia do Fundo de População das Nações Unidas F: 0xx 61 329.2194 ou luciano@undp.org.br

Apoios