Participar da Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections, realizada este ano em Denver, nos Estados Unidos, foi mais do que acompanhar um congresso científico. Foi acompanhar de perto para onde está caminhando o cuidado com o HIV no mundo.
A CROI é um dos encontros científicos mais importantes da área. É ali que são apresentados resultados inéditos sobre prevenção, tratamento e estratégias de cura. Em 2026, apenas 26 educadores comunitários e mentores foram selecionados globalmente para o programa Community Educator Scholars and Mentors.E eu fui o único brasileiro contemplado.
Recebi essa bolsa com responsabilidade. A seleção exige comprovação de atuação na área, carta institucional de recomendação e capacidade de ler e interpretar estudos científicos. Não basta estar presente. É preciso entender o que os dados realmente significam para a vida das pessoas.
O congresso terminou nesta semana. Mas o trabalho de traduzir essa ciência continua.
A sensação deixada pela CROI 2026 é clara: o HIV não está parado. O tratamento evolui. A prevenção evolui. E os desafios também.
Um dos assuntos mais discutidos foi o capsídeo do HIV. O capsídeo é a estrutura que envolve o material genético do vírus. Ele protege o vírus e ajuda no processo de infecção das células do corpo humano. Quando o HIV entra na célula, o capsídeo participa de etapas importantes para que o vírus consiga se multiplicar.
Por que isso importa? Porque se conseguimos agir sobre o capsídeo, conseguimos atrapalhar o funcionamento do vírus.
É exatamente isso que faz o lenacapavir.
O lenacapavir é um medicamento antirretroviral. Antirretroviral é o nome dado aos remédios usados para tratar o HIV. Ele também está sendo estudado como prevenção.
O diferencial do lenacapavir é que ele é de longa duração. Em vez de comprimidos diários, ele pode ser aplicado com intervalo de meses. Nos estudos apresentados, como o PURPOSE 1 e o PURPOSE 2, ele mostrou altíssima eficácia na prevenção do HIV, ou seja, protegeu as pessoas contra a infecção quando utilizado corretamente.
Isso pode ser uma revolução na prevenção chamada PrEP, que é a profilaxia pré-exposição. A PrEP é o uso de medicamentos por pessoas que não têm HIV para evitar a infecção. Hoje, no Brasil, a PrEP mais conhecida é em comprimido diário. A possibilidade de uma aplicação a cada vários meses muda completamente o cenário de adesão.
O lenacapavir também está sendo estudado para tratamento, ampliando as opções para quem vive com HIV.
Na Casa da Pesquisa, centro de pesquisa clínica onde atuo, participamos de estudos com lenacapavir e também com cabotegravir, outro antirretroviral injetável de longa duração. O cabotegravir já é utilizado tanto na prevenção quanto no tratamento em alguns contextos. Em breve, iniciaremos novos protocolos de tratamento. Isso mostra que o que é discutido na CROI já dialoga com o que está sendo pesquisado no Brasil.
Outro ponto forte da conferência foi a combinação de anticorpos neutralizantes com medicamentos antirretrovirais injetáveis. Anticorpos neutralizantes são proteínas desenvolvidas para ajudar o corpo a reconhecer e bloquear o vírus. A ideia é usar essas combinações para permitir esquemas aplicados a cada vários meses. Isso pode melhorar a adesão, que é a capacidade da pessoa manter o tratamento de forma contínua.
Na prevenção, discutiu-se também o uso da doxiciclina pós exposição para reduzir sífilis e clamídia. A doxiciclina é um antibiótico que também pode ser usado após uma relação sexual para diminuir o risco dessas infecções sexualmente transmissíveis. Os dados mostraram redução importante, mas também levantaram preocupação com resistência bacteriana, que acontece quando as bactérias deixam de responder ao antibiótico.
O envelhecimento também esteve no centro das discussões. Hoje, o HIV é uma condição crônica controlada com tratamento adequado. Mas muitas pessoas vivendo com HIV apresentam maior risco de doenças cardiovasculares. Estudos mostraram que estatinas, medicamentos usados para reduzir colesterol, diminuem eventos cardíacos neste grupo.
Também foram discutidos medicamentos chamados agonistas de GLP 1, usados inicialmente para diabetes e controle de peso. Eles começam a ser estudados pelo impacto na inflamação e no metabolismo em pessoas vivendo com HIV.
Outro tema importante foi o reservatório viral. O reservatório é o conjunto de células onde o HIV permanece escondido mesmo quando a carga viral está indetectável com tratamento. É o principal obstáculo para a cura. A pesquisa mostrou avanços na tentativa de reduzir ou controlar esse reservatório, ainda que estejamos longe de falar em erradicação.
Mas existe uma questão que atravessa todos esses avanços: o acesso.
Mesmo em países de alta renda, o acesso a medicamentos injetáveis de longa duração ainda é limitado. Inovação científica não é suficiente se não houver política pública, financiamento e organização dos serviços de saúde.
É aqui que a educação comunitária se torna fundamental.
Não adianta termos tratamentos eficazes, PrEP de longa duração ou novas estratégias de prevenção se as pessoas não compreendem como funcionam, não têm informação de qualidade e não conseguem manter o cuidado.
A adesão não depende apenas do medicamento. Depende de confiança, vínculo e acompanhamento.
Educadores comunitários são muitas vezes a ponte entre a ciência e a vida real. Somos nós que explicamos o que é a PrEP, o que é carga viral indetectável, o que significa participar de um estudo clínico. Somos nós que orientamos, acompanhamos, esclarecemos dúvidas e ajudamos pessoas a seguirem em tratamento ou prevenção.
Participar da CROI como educador comunitário reforça algo essencial: ciência e comunidade não são mundos separados.
Ser o único brasileiro entre 26 educadores comunitários e mentores selecionados mundialmente em 2026 amplia minha responsabilidade de trazer essa informação de volta, traduzida, contextualizada e acessível.
Porque não basta desenvolver novos medicamentos.
É preciso garantir que as pessoas entendam, confiem e consigam utilizá-los.
A resposta ao HIV sempre foi construída com ciência e com comunidade. E continuará sendo assim.
* Vinicius Francisco é jornalista e educador comunitário na Casa da Pesquisa do CRT.
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