Cássio Rodrigo
Segunda-feira, 11 de fevereiro, 17 horas. Meu celular começou a tocar: era da Secretaria de Direitos Humanos de Brasília, ligando no meu primeiro dia de férias. Atendi, afinal poderiam ser informações sobre as Conferências para GLBTT (gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais). Uma voz conhecida me indaga: “Você já sabe o que aconteceu? A sede da Associação da Parada foi invadida e o seu presidente atacado!”.
Imediatamente acionei a Coordenadoria da Diversidade Sexual e, aqui e ali, consegui informações mais precisas do ocorrido: Xandão, o atual presidente da Parada, estava na sede quando foi rendido, amarrado, encapuzado, xingado e agredido por pessoas que anunciavam um assalto. Iniciava-se, então, uma batalha conceitual na mídia: crime de homofobia ou mero assalto?
Bem, qualificar como um simples assalto é minimizar a importância do fato, afinal o que leva indivíduos a entrarem em um prédio público, com câmeras de segurança instaladas, subir até o andar da sede da Associação que realiza a maior Parada do Orgulho do mundo, amarrar, encapuzar, agredir seu presidente e, não nos esqueçamos, xingá-lo? Somente os valores roubados? Não! A certeza da impunidade.
Certeza essa que guiou, por meses, a ação de uma gangue de ladrões na Região da República, centro de São Paulo, freqüentada por GLBTT. Eles roubavam carteiras, celulares e outros objetos de valor, dos transeuntes e, depois, os espancavam violentamente, expressando o ódio que sentiam por estes seres humanos. Atos de violência homofóbica denunciados pelo próprio Xandão, registrados com meros furtos.
Homofobia sim, pois assaltos a transeuntes, em semáforos, etc, numa cidade grande como São Paulo, acontecem diariamente, mas não vem com valores morais agregados, como no caso da República onde as vítimas apanhavam por freqüentarem uma região predominantemente de homossexuais. Os mesmos valores morais foram agregados no assalto à APOGLBT quando, além da agressão física ao Xande, ainda mostraram outra face, xingando-o de “sapatão do caralho”.
E é essa mesma certeza de impunidade que, em 2005, levou o militante Adamor Guedes, em Manaus, à morte. Latrocínio, foi o veredicto à época. E assistimos a vítima tornar-se réu, pois os agressores e assassinos eram garotos de programa. Mas no Brasil, utilizar-se de serviços de profissionais do sexo não é crime previsto em lei. Assassinato é. Então, qual foi a “culpa” de Adamor? Ter confiado em seus algozes, que já o acompanharam de caso pensado, visando o assalto e matando-o para evitar que fossem reconhecidos. O ódio mostrou-se latente nesse caso.
Isto sem falar nos índices do golpe “Boa Noite Cinderela”, registrados como “assalto de natureza desconhecida”, e onde os mesmos valores morais servem como o pré-conceito que conduz o julgamento das vítimas, e a impunidade alimenta as quadrilhas de criminosos. Então, no ano em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa sessenta anos, vale lembrar que todos temos assegurado o direito à vida e à segurança, independentemente de nossa orientação sexual. Para tanto urge a aprovação de lei que criminalize a homofobia no Brasil, pendente de votação no Senado Federal, sob a desculpa de afronta à liberdade de expressão e a crença em princípios religiosos, mas combater a homofobia é muito mais que isso, é garantir o direito à vida a toda uma população que, a cada dois dias, sofre um assassinato no Brasil.
Cássio Rodrigo é jornalista e coordenador Geral da Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual
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