José Araújo
“Crianças são todas iguais”… Esse nosso olhar está muito longe da prática quando vamos trabalhar com algumas especificidades.
No caso da criança com HIV/AIDS a incoerência entre o discurso e a prática ficam mais visíveis, afinal trabalhamos muito mais com a doença do que com a criança.
Quando a Associação François Xavier Bagnoud do Brasil iniciou seu trabalho de desinstitucionalização, o direito a uma família que a criança deveria ter passou a ficar em segundo plano, onde o bem-estar da mesma deveria estar acima de laços sanguíneos ou afetivos.
Era muito comum uma parte da equipe de trabalho acreditar que a Instituição era a garantia de um tratamento de melhor qualidade que na sua possível família.
O eco desse discurso repercutia na família que se aproximava da Instituição, tornando a mesma incapaz de manter a qualidade do apoio a criança, ou seja a situação patológica está totalmente desassociada laço afetivo familiar.
Uma criança com aids ou qualquer outra patologia, deve ter nos laços familiares o caminho para uma melhor qualidade de vida.
Muitas vezes o pouco do que restou da família, ou mesmo a possível família adotiva, requer uma atenção redobrada e um trabalho de fortalecimento da mesma, visando um futuro na sociedade e não com grande parte de sua vida institucionalizada.
As crianças com aids não podem, em nome da infecção, serem enclausuradas em um espaço onde a expectativa de vida venha a se transformar numa diferença entre as demais crianças.
É fato que uma criança soropositiva deva ter uma atenção especial, mas essa atenção não está na exclusividade institucional e, como tal, devemos nos empenhar na luta para que a mesma venha ser capaz de suprir essa necessidade especial.
Durante um tempo foi muito comum o judiciário agilizar uma adoção tendo um olhar superficial sobre o processo, ou seja, uma criança com aids deveria ser rapidamente adotada, mesmo que sem muitos critérios, por ter uma expectativa de vida mais curta.
Lembro-me de um caso de uma criança em que um funcionário saiu para um passeio com a mesma e voltou com a guarda da criança sem que algum membro da diretoria fosse ouvido.
Crianças são todas iguais, não importando que ela tenha câncer, vírus hiv ou quaisquer diferenciais da maioria, e devemos agir sem a compaixão que é o reverso da cidadania.
Ser criança com HIV é ter direito a tratamento,
Direito a lazer,
Direito a moradia,
Direito a família,
O direito de uma criança com HIV é o mesmo direito de todas as crianças.
José Araújo Lima Filho é Presidente da Casa de Apoio AFXB do Brasil. E-mail: araujo.l@uol.com.br
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