CRIANÇAS COM HIV/AIDS E AFXB DO BRASIL – José Araújo Lima Filho é Presidente da Casa de Apoio AFXB do Brasil

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José Araújo Lima Filho

O conceito de casa de apoio criou uma situação assistencialista no Brasil, visando ao apoio imediato, onde estas crianças teriam um ambiente de carinho, e que lhes possibilitasse uma morte digna, pois a medicina ainda não tinha alcançado os avanços que viriam atender as necessidades para combater mais eficazmente a aids. Esta situação começou a mudar na medida que estes avanços permitiram uma nova perspectiva de vida e com qualidade, possibilitando um futuro de sonhos e conquistas.

Como presidente de uma Casa de Apoio, AFXB do Brasil, e apoiado por uma diretoria comprometida com a causa, percebemos a necessidade de rever o trabalho até então executado, que se resumia em atender as crianças em forma de abrigo institucional. Com o avanço da medicina e o acesso ao tratamento no Brasil, essas crianças passaram a vislumbrar uma perspectiva de vida e a necessidade de um trabalho mais amplo com as questões relacionadas a AIDS, sexualidade e família passaram a ser fundamentais dentro das casas de apoio.

Dentro deste novo contexto, a AFXB-Brasil passou a discutir a importância em rever o conceito de família, que é tão limitada em nossa cultura. A aproximação das crianças com a família biológica e o apoio à adoção das que perderam seus vínculos familiares, vêm nos possibilitando um vislumbramento e a possibilidade de conseguirmos inseri-las em uma família, em médio prazo. Com o retorno às famílias biológicas ou adotivas, o papel da Associação será de apoio, garantindo-lhes todas as necessidades dignas para a vida, onde o “estatuto” será substituído pelas normas comuns que regem uma família, e em substituição a uma diretoria; familiares, os quais lhes foram relegados durante todo tempo que estiveram na instituição.

A AFXB tem como filosofia, redimensionar o trabalho, procurando impedir que em conseqüência da desestrutura familiar, as crianças sejam institucionalizadas. Seguindo esta filosofia foi criado o Projeto Destak, que tem como maior objetivo a criação de geração de renda para os familiares de crianças afetadas e infectadas pelo HIV/AIDS. Com este projeto os familiares têm acesso a cursos, aprendizagem e a confecção de artesanatos diversos, o que tem possibilitado uma pequena renda às famílias, acompanhado pelo aumento da auto estima. Hoje, este Projeto estuda a possibilidade de fundar uma cooperativa, sendo que seus produtos já são comercializados em um shopping center.

Outro projeto da AFXB é o de Re-Inserção Social, que visa atender as famílias afetadas pelo vírus. Neste trabalho, oferecemos apoio às necessidades básicas e assistência, que vão desde alimentação, roupa e lazer, transmitindo educação, encaminhamentos e apoio psicológico. Hoje o total de crianças e adolescentes que recebem apoio, direto ou indireto, pela Associação François Xavier Bagnoud do Brasil, chega a 114. Este número tem um aumento substancial quando são inseridos os familiares das mesmas.

O mais novo trabalho realizado pela Associação está dando ênfase ao campo da informação, visando um novo caminho para as informações e responsabilidades com a vida sexual e social. Com esta finalidade, produzimos uma cartilha chamada “Beto e Juju”, que tem como objetivo discutir a iniciação sexual e às questões que esta remete, como a responsabilidade, gênero, preconceitos e drogas. Essa cartilha, tem uma linguagem baseada na cultura do hip–hop e pretende atingir os adolescentes dentro e fora da escola. Outro importante trabalho de informação que realizamos é na linha de adesão ao tratamento.
Em parceria com o GIV, criamos um material interativo para crianças e adolescentes vivendo com HIV/AIDS, com objetivo de informar e empoderar as mesmas de seus próprios tratamentos.

Esse material é pioneiro nessa área no Brasil e um dos raros no mundo. A interatividade do material permite levar os conhecimentos dos efeitos dos medicamentos em uma pessoa que vive com o vírus, bem como a melhor forma de conseguir uma adesão satisfatória aos medicamentos. A linha de trabalho da Associação no Brasil vem de encontro às demais existentes em outros países, onde o conceito de família é mais amplo, na medida que temos uma visão comprometida com o social de forma cidadã. Uma criança deve ser vista como parte de uma família, com direitos e deveres. Uma instituição por mais que seja baseada no amor e educação, não permite esta vivência, no sentido mais amplo de família, chegando no máximo no “quase”. Para que anteciparmos a institucionalização destas crianças, se acreditamos que na família é seu melhor lugar? Qualquer investimento que impeça a fragmentação familiar é o melhor que a sociedade pode oferecer a ela mesma.

José Araújo Lima Filho é Presidente da Casa de Apoio AFXB do Brasil. E-mail: araujo.l@uol.com.br

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