CRESCE A PRÁTICA DE BAREBACK NO BRASIL – Maria Cristina Martins – Psicóloga Clínica – Terapeuta Sexual – Especialista em Sexualidade Humana – Unicamp

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Maria Cristina Martins

A prática do sexo anal sem preservativos (bareback sex), “resgatada” nos anos 90 por uma parcela significativa da comunidade gay norte-americana, começou a ser propagada na Internet brasileira por um grupo de homossexuais e bissexuais masculinos que vêem a prática intencional do sexo desprotegido como um direito de escolha na busca do prazer e da felicidade. Cabe esclarecer que a prática do sexo desprotegido (unsafe sex), não é exclusiva de Homens que fazem Sexo com Homens (HSH): de acordo com os dados do último Boletim Epidemiológico de Aids do Ministério da Saúde (www.aids.gov.br), a epidemia pelo HIV/Aids ( Síndrome de Imunodeficiência Adquirida), que na primeira década da doença (anos 80), mantivera-se basicamente restrita aos grupos de HSH, aos hemofílicos, hemotransfundidos e aos Usuários de Drogas Injetáveis (UDI), vem crescendo consideravelmente como decorrência da transmissão heterossexual, que passou a ser a principal modalidade de exposição ao HIV desde 1993, para o conjunto dos casos notificados, superando “homossexuais” e “bissexuais”. Apesar de ser um grupo com elevado grau de conhecimento sobre as formas de contágio e prevenção, uma pesquisa da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA) [www.abiaids.org.br], revelou que após um período de redução de casos de Aids entre Homens que fazem Sexo com Homens (HSH), o número voltou a crescer: a partir de 1996, os rapazes de 15 a 24 anos representavam 8% das infecções registradas nesse grupo, somando atualmente 15%. Diante de tais informações, nota-se que o comportamento atual dos jovens gays é diferente dos da geração da década de 80 quando a Aids aterrorizou a comunidade homossexual masculina e varrendo milhares de vidas, levou a maioria dos homossexuais masculinos a adotarem o uso de preservativos (camisinhas) e a reduzirem o número de parceiros, já que a principal via de transmissão se dava pelo contato sexual. Tal mudança pode estar relacionada á ilusão de que a Aids tenha se tornado uma doença “crônica”, com a qual é possível conviver sem grandes complicações, devido aos enormes avanços no tratamento da síndrome e que afastaram o lado mais aterrador da epidemia. As significativas reduções na carga viral proporcionada pelas novas drogas anti-retrovirais, aumentaram consideravelmente a qualidade de vida dos portadores do vírus HIV e daqueles que desenvolveram a Aids. Um número incontável de soropositivos apresenta hoje uma aparência muito saudável, sem nada que os diferencie daqueles que não foram infectados, o que possivelmente fez com que o medo da Aids diminuísse consideravelmente, levando a uma despreocupação em relação á prevenção: “ Muitos dos homossexuais que iniciam a vida sexual nos dias de hoje não viveram os dramas da geração anterior e não vêem a necessidade de adotar as mesmas práticas. Assim também agem milhões de adolescentes heterossexuais”, argumenta o médico infectologista Dráuzio Varella (www.pontogls.com/sal_gaysjovensaids.htm). Torna-se preocupante, portanto, o engajamento consciente e deliberado de indivíduos HIV negativos e positivos na prática do sexo desprotegido, num momento em que o mundo todo reúne esforços na luta contra uma epidemia que já atinge aproximadamente 42 milhões de pessoas no planeta, entre homens, mulheres e crianças (www.unaids.org.br). Na América do Norte, o fenômeno do sexo “bareback” tem sido objeto de muita polêmica na própria comunidade gay e tem atraído a atenção de muitos profissionais interessados no estudo da sexualidade humana (www.users.dircon.co.uk/~eking/features/gayunsafe.htm), os quais tentam entender quais os possíveis mecanismos e motivações sócio-culturais e psicológicas que podem estar contribuindo para um retrocesso no comportamento sexual de uma parcela significativa da comunidade homossexual masculina americana.

UM RISCO CONHECIDO
Como mencionado anteriormente, alguns grupos de discussão direcionados a gays, têm propagado e incentivado a prática do “bareback” no Brasil. Para alguns, a participação nesses grupos é apenas um veículo para a satisfação de fantasias sexuais, enquanto para outros, torna-se uma possibilidade para o encontro “real” de parceiros que estejam interessados na prática intencional do sexo desprotegido. A página inicial do grupo atualmente extinto, BarebackselvagemspBrazil, era bem clara quanto aos seus objetivos: “Sómente gays masculinos que saibam o que é bareback sex e desejam o bareback sex em nome de uma rebeldia e liberdade, inclusive a liberdade de escolha. Para orgias, encontros hedonistas visando somente o prazer entre homens selvagens, duros, tudo permeado com muito sêmen, para a alegria de todos. Se você não gosta de sexo sem camisinha, caia fora! Agora, se gosta, aproveite, foda, faça contatos, seja bem vindo!”(https://br.groups.yahoo.com/group/barebackselvagemspBrazil). R.A, gay, 47 anos, webmaster do grupo que contava com quase 4.000 membros desde que foi divulgado em agosto de 2002 até a sua extinção em meados de março de 2003, argumenta que ninguém tem coragem de admitir que faz sexo sem camisinha e que depois de 20 anos de sexo seguro, as pessoas se cansaram e questiona: “Colocar o sexo sem camisinha como um fenômeno puramente gay é mais uma forma cruel de preconceito. Por que nós gays temos de carregar mais esse rótulo? …Por que a coisa tem de pesar sempre para o nosso lado, como se nós fôssemos responsáveis pela conscientização da sociedade? Os gays não são responsáveis por nada…As pessoas, homossexuais ou heterossexuais fazem sexo sem camisinha, não adianta tapar o sol com a peneira”

Maria Cristina Martins, Psicóloga Clinica, Terapeuta Sexual e Especialista em Sexualidade Humana – Unicamp. Trabalho apresentado no XVI Congresso Mundial de Sexologia – Março/2003 – Havana – Cuba. Telefone

Apoios